
Em Passo Fundo, no norte do Estado, a prática das benzeduras persiste, mantida por mulheres como Iná e Marlena. Com a cabeça baixa, movimentos suaves e uma voz sussurrada, elas pronunciam rezas de cura, reforçando uma tradição que resiste ao tempo. “Basta acreditar”, dizem as benzedeiras sobre a efetividade de suas bênçãos.
Na maioria dos casos, a crença transmitida oralmente vem de família: filhas que crescem ao lado de mães, avós e madrinhas benzedeiras. É o caso de Iná da Silva Boeira, de 84 anos, moradora do bairro Fátima.
— Aprendi a benzer com a minha mãezinha quando eu tinha nove anos. Eu e minhas duas irmãs crescemos vendo ela benzer e foi assim que adquirimos o dom.
No bairro São José, a história se repete. Marlena Pires Canabarro, de 81 anos, aprendeu a benzer com a mãe, que era parteira, quando tinha apenas 14 anos.
— Morávamos no interior e ali aprendi vários tipos de rezas com a mãe. Hoje o que eu mais benzo são as crianças contra quebrante e mau-olhado — contou à reportagem, enquanto um casal com dois filhos aguardava pela bênção.
Força energética
Atualmente, Marlena benze apenas crianças porque, durante a pandemia da covid-19, a procura de adultos foi muito grande e ela desenvolveu problemas no braço. O benzimento, por vezes, consumia sua energia e ela precisava de descanso.
— Muitas vezes fiquei tonta depois de benzer alguém que estava muito mal. Começava a me sentir indisposta, com uma sensação ruim — relembra.
Segundo a folclorista e escritora Elma Sant’Ana, autora do livro Benzedeiras e Benzeduras (Editora Alcance, 2008), para além da religiosidade, o dom também está atrelado a uma questão de energia física:
— As benzedeiras precisam estar preparadas para fazer a reza, porque é um momento em que se emana muita energia. Se explica a efetividade da cura porque a benzedeira tem sempre boas energias para transmitir, e se ela não estiver preparada, pode contrair uma carga energética muito pesada.
Apesar disso, as benzedeiras não cobram pelo dom, aceitando presentes apenas se o benzido fizer questão.
Palavras e objetos
Os tipos de benzedura variam conforme o mal tratado, mas têm em comum a força da palavra e a repetição ritualística. Entre as práticas de Iná, a benzedura contra quebrante em crianças é a mais buscada.
Com um rosário, ela pronuncia a reza benzendo a mão, o umbigo e o pé: "Mariazinha, tua mãe te pariu e te criou. Se tu tiver quebrante, mau-olhado, inveja, olho grande, nervosismo, mal-estar, dores pelo corpinho, eu tô te tirando. Em nome de Jesus e de Nossa Senhora. Amém."
Outro benzimento feito por Iná é contra mordida de aranha: "Te benzo com estas palavras santas e do padre Santo Agostinho, te corto a cabeça e o rabo, em nome de Deus e da Virgem Maria. Amém."
Já na casa de Marlena, as benzeduras envolvem roupas, fronhas ou panos, que depois devem ser usados exclusivamente pela pessoa para quem a reza foi feita. Segundo ela, se outro utilizar a peça, o efeito se perde.
Marlena também realiza benzimentos com agulha e linha, gesto simbólico para “costurar os males". Além disso, utiliza arruda colhida na horta da própria casa.
De acordo com a folclorista Elma Sant’Ana, o uso desses objetos é comum em diferentes partes do RS, uma vez que carregam significados simbólicos importantes.
— O aço, por exemplo, não deixa passar o mal. Por isso a tesoura aparece tanto. Também são usados carvão, copo com água, sal grosso, cinza, ramos do campo e água benta. Cada benzedeira adapta conforme o que aprendeu e também de acordo com a sua região — explica.
Tradição que resiste
A busca pelas rezas reduziu com o passar dos anos, assim como o número de benzedeiras em atividade. Hoje, a maioria tem idade avançada e atua de forma discreta.
Ainda assim, a tradição resiste, sustentada pela fé e pela transmissão oral entre gerações.
As benzedeiras são precursoras da medicina. Elas sempre estiveram presentes no cotidiano, especialmente no interior, cuidando da fé e da cura quando não havia recursos médicos.
ELMA SANT’ANA
Folclorista e escritora
Na casa de Iná, por exemplo, a prática é passada entre gerações. A filha, Ivone Boeira de Moraes, herdou o dom.
— Antes de tantos avanços, tecnologias e remédios, por que as pessoas ainda recorrem às benzeduras? Essa é uma pergunta que sempre faço. E a resposta está na fé, na energia e na confiança — reflete Elma.

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