
Os olhos verde-azulados de Maria Jakymiw ainda guardam lembranças de uma vida dividida entre medo e esperança. Aos 101 anos, a moradora de Passo Fundo recorda da infância interrompida pela Segunda Guerra Mundial e de uma juventude marcada por fugas, perdas e, principalmente, pela coragem de recomeçar.
Nascida em 11 de maio de 1924, na Polônia, Maria perdeu os pais Pedro e Ana Trunyack quando tinha apenas seis anos. Criada pelo tio, que se tornou seu tutor, cresceu curiosa e encantada pela ideia de conhecer o mundo. Ainda adolescente, embarcou em uma excursão para Berlim, na Alemanha, sem jamais imaginar que seria uma viagem sem volta.
— Meu tio me disse pra ir e aproveitar, já que eu tinha o dinheiro que herdei dos meus pais. E eu fui — conta.
Viagem só de ida
Em 1939, aos 15 anos, Maria chegou à Alemanha. Dias depois, o barulho das bombas e sirenes marcaria o início da guerra.
— Eu estava no hotel durante a excursão, já tinha ido dormir. De repente, ouvi minha amiga batendo na porta. Ela dizia para irmos embora daquele lugar, pois havia iniciado a guerra — lembra, com aflição.
A jovem polonesa nunca mais voltou para casa. Longe do tio e dos amigos, precisou sobreviver em meio ao medo e solidão. Um ano depois do início da guerra e após meses escondida dos soldados, uma “bondosa senhora”, como ela mesma refere, encontrou-a para convidar a uma nova vida. Começou a trabalhar em uma padaria, onde o pão, símbolo de acolhimento, tornou-se mera — e amarga — lembrança.
— A padaria onde eu trabalhava foi bombardeada. Desde lá, nunca mais gostei de pão de padaria, só comia pão feito em casa — conta a idosa.
Sem liberdade para expressão e vivendo sob o peso do regime nazista, a idosa lembra dos tempos em que morava na Polônia:
— (Na Polônia) as pessoas falavam bom dia, boa tarde, boa noite. Na Alemanha, só podia falar “Heil Hitler” — recorda.
Recomeço na Áustria
Depois do bombardeio na padaria, os ventos da esperança levaram Maria para a Áustria, em 1941. E a nova vida, desta vez, veio carregada de amizades, liberdade e, principalmente, paixão. Foi nesse período que conheceu o alemão Francisco Muller, o grande amor de sua vida.
Na Áustria, Maria trabalhou em um hotel que recebia hóspedes de toda a Europa, incluindo soldados que lutavam na guerra.
— Meu patrão do hotel me chamou para jantar com eles na mesa. Na Alemanha, não podia nem isso. Aquilo me marcou muito — lembra, emocionada.

Embora a guerra ainda estivesse próxima, ir à igreja, andar pela rua ou conhecer novas pessoas ainda era possível na Áustria de 1941. Em pouco tempo, no entanto, o país também seria palco de grandes batalhas. Os soldados americanos chegaram no hotel e destruíram o que havia nas proximidades. Contando sobre as histórias vividas no local, Maria lembrou de uma surpreendente:
— Meu patrão ganhou um pequeno Hitler de ouro, mas quando os soldados chegaram, ele não podia deixar aquilo à mostra, então me deu. E eu jamais queria ficar com aquilo, já pensou se me pegam com uma estátua do Hitler? Então eu enterrei. Isso alguém talvez tenha achado por lá anos depois, mas se eu soubesse que podia derreter e fazer ouro em barra, ahh… — lembra.
Do outro lado do oceano

Com uma Europa assolada pela guerra, Maria e Francisco decidiram deixar o continente e recomeçar a vida. O casal embarcou em um navio da Tchecoslováquia rumo ao Brasil. Maria estava grávida, mas a travessia, que durou 15 dias, ficou marcada por uma grande tristeza.
— Eu passei muito mal, vomitei até chegar no Brasil. Acabei perdendo o bebê que esperava. Foi muito doloroso. Chegamos ao Brasil muito tristes — relata.
O casal desembarcou no Rio de Janeiro e, pouco tempo depois, seguiu para o sul do país, junto a um grupo de imigrantes que colonizava terras gaúchas. No Rio Grande do Sul, foram até Porto Alegre e, em seguida, passaram a morar em Gaurama, no norte do Estado. Francisco, marido de Maria, havia encontrado emprego como técnico de dinamite e operava ações de demolição de rochas.
Família, perdas e recomeços
Depois de anos de mudanças, o casal foi viver nas Missões, passando por Santo Ângelo e Santa Rosa, quando as terras indígenas começaram a ser doadas para imigrantes europeus. Foi em Santo Ângelo que nasceram as gêmeas Olga e Ana, filhas do casal. A maternidade trouxe um novo sentido à vida de Maria, mas também reavivou a saudade da família que ficou na Europa.
Ela nunca mais viu os irmãos. Um deles, soldado polonês, lutou na guerra e provavelmente morreu em combate, conforme Maria.
— Eu nunca mais vi ele, desde quando era criança. Acho que morreu na guerra, mas não lembro sequer o nome dele — lamenta.
Já a outra irmã era mais velha e permaneceu na Polônia. Para manter a comunicação da época, escreviam cartas uma à outra. Na última carta, Maria contou que estava grávida das gêmeas. Depois de um ano, a carta retornou, pois o endereço não havia sido encontrado. Ela nunca mais teve notícias da irmã.
Passo Fundo, destino final
Nas missões, encontrar emprego não era algo fácil. Maria cuidava da casa e o marido buscava serviço para sustentar a família e as filhas pequenas de pouco mais de um ano. Foi então que, após ouvir “boatos” de que no norte do Estado um município se desenvolvia rapidamente, em 1952 o casal partiu para Passo Fundo.
No município, moraram inicialmente no antigo Hotel Nacional, à época localizado na Rua General Canabarro, esquina com a Capitão Eleutério. Tempos depois, se mudaram para uma casa na Vila Cruzeiro. Ao chegar na cidade, Francisco iniciou na função de pintor e, de acordo com Maria, ajudou a pintar os primeiros edifícios de Passo Fundo, além de comércios pela cidade.
As filhas, Olga e Ana, por sua vez, estudavam no antigo “colégio das irmãs”, assim descrito por Maria, atual Colégio Notre Dame Menino Jesus. Próxima da escola, a idosa polonesa foi sempre frequentadora da Paróquia Santa Teresinha em Passo Fundo.

Francisco, por sua vez, trabalhou até começar a ficar mal de saúde. Ele morreu em 1982 e, desde então, Maria permaneceu na cidade, cuidando das filhas, dos netos e bisnetos — hoje são seis de cada.
Mesmo com mais de um século de vida, a idosa polonesa ainda fala sobre tudo o que viveu, lembrando de cada detalhe. Aliás, faz também questão de contar histórias que, embora cobertas pelas feridas, consolidaram a personalidade de uma mulher forte.
De uma infância interrompida pela guerra, Maria viu em Passo Fundo um lugar para viver com tranquilidade. Entre retratos antigos e memórias que se misturam ao presente, os olhos verde-azulados refletem a coragem de quem, mesmo em tempos de guerra, nunca deixou de acreditar.
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