Uma distante ruína cinza, abaixo do nível da rua, é a paisagem que restou em um dos trechos da Avenida Presidente Vargas em direção a Marau, no bairro São Cristóvão. Ocioso, o terreno onde existia o Frigorífico Planaltina já não habita a memória das gerações mais jovens.
Há 40 anos, o empreendimento fechava as portas com o encerramento das atividades do curtume — último setor que ainda operava em 1985. O frigorífico embalou o desenvolvimento econômico e o crescimento populacional do bairro São Cristóvão e de toda Passo Fundo a partir da sua instalação (assista abaixo).
O frigorífico Planaltina deixou sua marca durante o boom das agroindústrias no norte gaúcho. Cidades como Carazinho, Sarandi e Marau já contavam com empresas do setor e, em Passo Fundo, o modelo de negócio se firmou entre o fim da década de 1940 e meados de 1950. Uma vez pujante, o terreno hoje está tomado pelo matagal.
— Naquele período, Getúlio Vargas enquanto governador do RS e presidente incentivou a agricultura familiar, com a produção de milho e de suínos. Daí passaram a surgir os frigoríficos, a partir da necessidade de ter circuitos de distribuição e de corte da carne — explica o doutor em Ciências Sociais e professor da Universidade de Passo Fundo (UPF), José Carlos Tedesco.
A linha de produção tinha abate, refinamento de banha e fabricação de embutidos como salame, copa, salsicha e outros. Mais tarde, o curtume passou a usar o couro dos porcos. No mesmo bairro, operava também o Frigorífico Z. D. Costi, no atual terreno do Passo Fundo Shopping.
As duas agroindústrias fizeram com que o bairro São Cristóvão se tornasse a principal região a absorver o êxodo rural de Passo Fundo e arredores: a população urbana aumentou exponencialmente ao longo do século 20, saltando de 31 mil habitantes em 1950 para 105 mil em 1980.
Para aproximar a mão de obra e a indústria, os frigoríficos construíram vilas operárias, onde os funcionários estabeleceram residência. Parentes dos empregados passaram a morar nas casas da empresa, o que levava outros membros das famílias a trabalharem nos frigoríficos.
— Grande parte desse pessoal vai habitar essa região da São Cristóvão, no entorno do Planaltina. Esse modelo de agroindústria foi incentivado e cresceu durante três décadas, em média. O impacto na região e na cidade foi intenso — explica Tedesco.

Após a ascensão, a queda
Passadas as décadas de dominação, a falência bateu à porta. Fatores que iam desde dívidas volumosas contraídas pelos proprietários até a implantação de novas leis impactaram o setor de frigoríficos na região.
— O modelo agroindustrial faliu, praticamente todos fecharam. Novas exigências fitossanitárias na década de 1970 demandavam investimentos e adequações, o que saía caro. A questão ambiental também apareceu: havia problema de cheiro e descarte de produtos químicos que acabavam poluindo — elenca o professor.
A criação de suínos também perdeu espaço quando a produção de milho, aos poucos, deu lugar à soja, diminuindo, assim, a oferta de alimento aos porcos. Com o passar dos anos, o modelo foi substituído por um novo formato de indústria: os aviários.
O terreno do Frigorífico Planaltina está lá até hoje, mas pouco da estrutura resiste em pé. Abandonado, pedaços da área hoje servem como depósito de materiais de construção; em outros, foram erguidas casas e prédios.
A revitalização do espaço já foi objeto de estudo entre arquitetos, com ideias de manter o que restou da construção e cercá-la com áreas de esporte e de atividades culturais. Mas, por enquanto, o que resta da memória física do frigorífico Planaltina segue sendo engolida pelo tempo.




