
Até hoje, o ano de 1987 ainda desperta curiosidade entre os moradores de Passo Fundo: naquele período, o diabo teria aparecido em uma boate da cidade e virado motivo de sucesso entre as mulheres. A história que começou como boato virou uma lenda urbana do norte gaúcho e segue sendo contada há quase 40 anos.
Como é comum nas lendas urbanas, existem diferentes versões e cada pessoa conta de uma forma. Mas nesta, o contexto é sempre o mesmo: em certa madrugada, o diabo, vestido de homem, apareceu em uma balada que funcionou durante os anos 1980 na Avenida Brasil, no bairro Petrópolis.
A festa era o ponto de encontro de toda a região, com três pistas de dança divididas entre discoteca, samba e música gaúcha. Funcionava sempre de sexta a domingo e chegava a reunir 1 mil pessoas em um fim de semana — entre eles, dizem muitos, até o próprio diabo.

Lindo e com pés de bode
Uma das testemunhas da história que virou lenda é a professora aposentada Lucilia Vieira. Naquela noite ela estava na boate Cacimba acompanhada de um grupo de amigas. Lucilia lembra que a figura era bem apessoada: vestia terno, era cheiroso e apareceu no hall da pista de samba bebendo whisky. Segundo ela, o único vestígio que mostrou que seria o diabo foram os pés:
— Era um cara muito bonito e chamava a atenção. Dançou com algumas meninas, que não eram da minha turma, e a mulherada só falava que ele era lindo. Lá pela madrugada ouviu-se que os pés daquele cara eram de gado, rachadinhos, como de bode.
Já quem trabalhava na festa diz que a boate era outra. Naquela noite, Joelson Zardo, mais conhecido como DJ Joy, estava tocando na pista discoteca do Whiskadão e recorda que o suposto diabo causou uma confusão na pista de dança e acabou com a noite.
— Não vi porque ele não estava na minha pista, mas todo mundo saiu correndo pra fora da boate. Eu deixei um disco tocando e saí também. Lá fora, uma mulher disse que foi atacada por ele, agredida, e falou dos pés de bode e do terno. Mas eu acho que era tudo uma armação — defende.

Independente da versão, poucos meses depois daquela noite de 1987, a boate fechou e a história seguiu sendo contada.
— Até se eu parar um pouquinho, agora, eu consigo me lembrar da cara dele — diz Lucilia.
A reportagem de GZH Passo Fundo buscou por registros do caso em arquivos históricos e na imprensa, sem sucesso. Não há qualquer comprovação de que o fato aconteceu — mas, muito antes das redes sociais e dos smartphones, o compartilhamento da lenda permaneceu vivo no imaginário dos passo-fundenses.


