
O que começou como um sonho virou uma vida sobre rodas. Marina e Alan Perius, casal de Passo Fundo, no norte do Estado, chegaram ao Alasca, nos Estados Unidos, no sábado (26), após atravessarem nove países de motorhome, viagem que começou em dezembro de 2023.
A viagem representa a conclusão de uma jornada iniciada quando partiram rumo ao extremo sul das Américas, o Ushuaia. Após ajustes no veículo em Passo Fundo, retomaram a estrada com destino ao extremo norte do continente.
A aventura ficou marcada por uma rotina regrada: enquanto Alan trabalha remotamente no segmento de análise de sistemas, Marina também segue com a formação acadêmica à distância.
— Temos uma vida normal de segunda a sexta-feira. Rodamos mesmo nos finais de semana — conta ela.
A adaptação à rotina na estrada, com limitações de espaço, água e luz, foi desafiadora nos primeiros meses, mas logo se tornou natural. Para que tudo funcionasse, o casal contou com uma aliada essencial: a internet via satélite, que possibilitou manter o trabalho e os estudos mesmo em locais remotos.
A vontade de viajar nasceu depois que Alan fez um intercâmbio na Irlanda, em 2013, e nunca mais perdeu o gosto por explorar o mundo. Marina entrou na jornada depois, quando ambos fizeram um mochilão pela América do Sul e Central durante um ano.
— Quando voltamos, percebemos que aquele estilo já não funcionava mais, especialmente por causa do trabalho. Aí surgiu a ideia do motorhome — explica Marina.
O veículo usado foi comprado em São Paulo e logo caiu na estrada. Desde então, passaram pelo Uruguai, Argentina, Chile, Peru, Equador, Colômbia, México, Estados Unidos e Canadá. Para Marina, a chegada no Alasca tem um peso especial:
— Chegar ao Alasca depois de sair do Brasil e passar por Ushuaia é surreal. Foram tantos quilômetros, perrengues, risadas, paisagens de tirar o fôlego e momentos que a gente nunca vai esquecer. No fim, não é só sobre o destino, é sobre tudo o que a gente viveu até aqui. É olhar pra trás com o coração cheio e dizer "a gente conseguiu".
Paisagens marcantes
Durante a jornada de motorhome que levou o casal do extremo sul ao norte do continente americano, os dois vivenciaram paisagens e experiências únicas. Entre os destinos favoritos está a Patagônia, dividida entre o Chile e a Argentina.
— É uma região espetacular, principalmente no início do inverno, com montanhas cobertas de neve e lagos de um azul impressionante — destaca Alan.
Já Marina também se emocionou com a grandiosidade da natureza no Salmon Glacier, no Canadá. Ela descreve a vista como uma das mais impactantes da viagem.
Atualmente no Alasca, o casal pretende permanecer na região por cerca de dois meses, respeitando a rotina de trabalho e estudos que mantêm mesmo na estrada.
Após chegarem a Prudhoe Bay no sábado (26), o último ponto acessível de carro no extremo norte, o casal ainda deve cruzar o Círculo Polar Ártico e, se tiverem coragem, seguir uma tradição: entrar nas águas geladas do Oceano Ártico.
Perrengues

A vida na estrada em um motorhome é uma mistura de liberdade e desafios constantes. Para Alan e Marina, essa aventura não tem sido só sobre paisagens incríveis, mas também sobre aprender a lidar com os imprevistos do dia a dia, desde a escassez de recursos em lugares desérticos até sustos com falhas no veículo.
Cada dificuldade enfrentada se transforma em uma lição que fortalece a jornada e a relação do casal.
— Essa vida nos ensinou muito a resolver os problemas de uma forma diferente. Dividir a viagem em casal torna tudo mais leve, mas também tem que saber que vai passar por muitas coisas boas e ruins — afirma Marina.
A falta de água no motorhome virou um desafio constante e inesperado. Diferente da vida tradicional, onde abrir a torneira é simples, na estrada a água precisava ser medida e economizada.
— O que ninguém fala na internet é sobre a água no motorhome. Ninguém falou para nós que iríamos ficar, às vezes, três dias sem banho. A gente já chegou a ficar cinco dias sem banho no Atacama porque não achamos água — relembra Marina.
Enquanto países como Argentina, Brasil e Uruguai ofereciam água de forma fácil e gratuita, ao subir para o norte do Chile e Peru, a realidade mudou: até mesmo em campings pagos, faltava água.
— Hoje, qualquer banho que tomamos num chuveiro bom é uma felicidade. Essa vida de motorhome tem muitas fases — afirma.
Outros perrengues também precisaram ser enfrentados pelo casal: fogo no motorhome, após modificações elétricas mal executadas, e três meses sem geladeira. Durante o ano novo na Colômbia, os dois precisaram improvisar, usando gelo em baldes para tentar conservar os alimentos enquanto enfrentavam temperaturas de 40ºC.
Na Colômbia, a situação piorou e Marina e Alan ficaram praticamente sem refrigeração. A solução veio perto de Cartagena, onde um técnico conseguiu fazer alguns ajustes para a geladeira voltar a funcionar.
— Também ficamos sem aquecedor em um frio de -5ºC. Dormíamos de luva e touca para aguentar o frio. Até as bebidas dentro de casa congelavam, de tão frio — relembra.
Experiências para a vida
Para Alan, apesar de parecer uma loucura, seguir toda a Rota Pan-Americana é a experiência mais incrível que ele já viveu:
— Eu sempre falo que, quando as pessoas estão no leito de morte, elas nunca falam que queriam ter ganhado mais dinheiro, mas que queriam ter aproveitado mais a vida. É um lema que eu levo. Quero aproveitar ao máximo a vida porque ela é feita de experiências.
Do outro lado, Marina carrega uma história de superação. Depois de anos cuidando da mãe doente, ela descobriu que a vida é curta demais para esperar.
— Após o falecimento da minha mãe, pude ver que queria viver tudo o que a vida poderia me oferecer. A gente não vive para sempre, então temos que olhar e experimentar tudo. Depois do mochilão que fizemos, tive coragem. Acho que a palavra certa é coragem e não ter medo do desconhecido — conclui.
Após o Alasca, Marina e Alan também devem seguir viajando pelo Canadá e Estados Unidos.
— Vamos ver como reagiremos ao frio. Sabemos que podemos ficar até outubro no Canadá. Depois entramos nos Estados Unidos. Dependendo da imigração, do tempo que derem para nós, ficaremos o máximo que pudermos — prevê.
A aventura do casal é registrada através de vídeos no YouTube. A viagem pode ser acompanhada neste link.

