Por Jocélio Nissel Cunha, presidente do Hospital de Clínicas de Carazinho
Nunca tivemos tanta liberdade para falar. Mas será que realmente aprendemos a ouvir? Houve um tempo em que ser ouvido dependia de atravessar uma porta que poucos podiam abrir. Era preciso estar em um jornal, em uma emissora de rádio, diante de uma câmera ou ocupar algum espaço de prestígio para que uma opinião alcançasse milhares de pessoas.
A internet derrubou boa parte dessas portas. Hoje, um celular pode transformar qualquer cidadão em repórter, comentarista, produtor de conteúdo ou formador de opinião. À primeira vista, parece uma das maiores conquistas da democracia contemporânea.
E, em muitos aspectos, é. A internet deu voz a quem historicamente permaneceu à margem. Pequenos empreendedores passaram a divulgar seus negócios sem depender dos grandes veículos. Artistas encontraram público sem precisar da aprovação de uma emissora.
Comunidades antes invisíveis puderam contar suas próprias histórias. Mas existe um detalhe nessa revolução: dar voz a todos não significa garantir que todos serão ouvidos. Esse talvez seja o grande paradoxo da era digital. Nunca foi tão fácil publicar uma opinião e, ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil conquistar atenção. Cada postagem disputa espaço com outra; cada notícia concorre com um vídeo, uma propaganda, uma polêmica ou uma indignação de última hora.
E o Brasil oferece um exemplo particularmente evidente desse fenômeno: a polarização política. Nos últimos anos, o debate político brasileiro ultrapassou a simples divergência sobre propostas, governos ou projetos de país. Em muitos espaços digitais, a política passou a funcionar como uma espécie de identidade.
O adversário político deixa de ser alguém com outra visão de mundo e passa a ser tratado como uma ameaça. Nesse ambiente, a internet pode funcionar como combustível. As redes sociais permitem que cada pessoa escolha, consciente ou inconscientemente, os conteúdos que confirmam suas próprias convicções.
Uma opinião é compartilhada por pessoas que pensam de maneira semelhante, recebe aprovação, ganha alcance e volta ainda mais forte para o mesmo grupo.
Do outro lado, acontece exatamente o mesmo. Formam-se bolhas. É nesse ponto que a política deixa de ser debate e começa a se transformar em torcida.
O problema não é existir esquerda, direita, centro ou qualquer outra corrente política. A democracia depende da pluralidade. O problema surge quando a identidade política passa a ser mais importante do que os fatos e quando defender um grupo significa justificar qualquer coisa que ele faça.
É possível reconhecer um acerto de alguém de quem discordamos. É possível condenar um erro cometido pelo nosso próprio campo político. Parece simples, mas a lógica das redes frequentemente recompensa justamente o contrário. Quanto mais indignado o discurso, maior a possibilidade de repercussão.
Quanto mais agressivo o ataque, maior a chance de engajamento. Quanto mais simples a explicação para um problema complexo, mais fácil compartilhá-la. E assim a discussão pública vai perdendo nuances. Questões complexas passam a caber em frases curtas. Adversários viram caricaturas.
O debate transforma-se em disputa moral entre "nós" e "eles". Mas há uma ironia nisso tudo: a internet prometia aproximar pessoas e acabou, muitas vezes, aproximando apenas quem já pensa de maneira semelhante. Diferenças ideológicas, conflitos sociais e disputas pelo poder sempre existiram.
O que a internet fez foi acelerar, amplificar e tornar permanente uma disputa que antes tinha espaços e tempos mais definidos. A cada novo acontecimento político, milhares de opiniões surgem imediatamente. Antes que os fatos sejam completamente conhecidos, já existem julgamentos, acusações, memes e conclusões definitivas.
A velocidade da opinião frequentemente vence a lentidão necessária para compreender. E talvez esse seja o maior perigo: quando a necessidade de tomar partido aparece antes da necessidade de entender o que aconteceu.
Isso não significa defender uma internet silenciosa. Muito pelo contrário. Uma democracia saudável precisa de cidadãos que questionem governos, denunciem injustiças, defendam suas convicções e participem do debate público. O que precisamos é de uma internet com mais responsabilidade e menos automatismo. Precisamos desconfiar da informação que confirma perfeitamente aquilo em que já acreditamos. Precisamos verificar a fonte antes de compartilhar.
E, principalmente, precisamos recuperar uma habilidade que parece cada vez mais rara: ouvir alguém de quem discordamos sem imediatamente tentar destruí-lo. A internet democratizou a possibilidade de falar. Mas a democracia exige algo mais difícil: a capacidade de conviver com quem fala diferente de nós. No fim, talvez a pergunta não seja se a internet democratizou a voz ou aumentou o barulho. Ela fez as duas coisas. Mas também criou uma máquina capaz de multiplicar ressentimentos, desinformação e intolerância em uma velocidade inédita.
O problema, portanto, não está apenas na tecnologia. Está na maneira como escolhemos utilizá-la. A internet colocou um megafone nas mãos de milhões de brasileiros. O futuro da conversa pública talvez não dependa de termos ainda mais vozes. Depende de aprendermos a escutar as que não confirmam aquilo que já pensamos.
Porque uma democracia em que todos podem falar, mas ninguém aceita ouvir, corre o risco de transformar liberdade de expressão em uma interminável guerra de monólogos. Quando todos gritam ao mesmo tempo, o problema já não é encontrar alguém para falar. É conseguir ouvir alguma coisa.


