
Com o governo de Donald Trump é sempre difícil fazer afirmações: não foram poucos os casos em que o presidente norte-americano blefou e depois mudou de ideia — um prato cheio para a especulação. Mas a ordem executiva publicada na tarde de quarta-feira (30) mudou tudo e, a partir de 6 de agosto, os norte-americanos que quiserem comprar determinados produtos brasileiros precisarão pagar 50% a mais em impostos.
A lista de exceções é longa (leia aqui) e nem tudo terá tarifas. Desde o começo, já se sabia que Passo Fundo e municípios do norte gaúcho não deveriam ser afetados de forma tão agressiva — pelo menos não diretamente.
Isso porque mais de 80% do que é exportado pela cidade é soja e derivados, o que nos coloca em posição de "concorrentes globais" dos Estados Unidos. E, se não fosse o suficiente, o principal destino (70%) dos nossos produtos é a China. Apenas 0,1% do que é operado na cidade vai para os Estados Unidos.
No caso de Passo Fundo, o impacto mais direto tende a ser no câmbio, motivado pelas turbulências nas relações comerciais, que respinga no agronegócio e na indústria ligada ao agro.
— O risco maior é o efeito em cadeia, que começa longe, mas bate na porta da região quando menos se espera — observou a economista e professora da Atitus Educação, Giana Mores.
De olho em Soledade
Quem pode se prejudicar é o município de Soledade, que tem uma fatia importante da exportação de pedras preciosas, como ametistas, citrinos e ágatas, aos Estados Unidos. O Sindipedras estima que 35% da produção vá para o país norte-americano. Mesmo antes da confirmação da tarifa, as negociações já haviam sido afetadas:
— Há 15 dias os negócios estão praticamente parados. Alguns pedidos foram acelerados para tentar escapar da tarifa, outros muitos suspensos por causa dessa indefinição. Os (pedidos) que já chegaram não sabemos o que vai ser, se os compradores vão bancar a tarifa ou mandar de volta — disse Gilberto Bortoluzzi, presidente do Sindipedras RS.
A cidade tem cerca de 50 empresas e 200 pequenos produtores de pedras preciosas responsáveis por exportar para diversas partes do mundo. Das grandes às pequenas empresas do setor, são pelo menos 4,7 mil empregos diretos e indiretos.
Alívio para Liberato Salzano
Responsável pela produção de citros e suco de laranja, os agricultores e empresários de Liberato Salzano respiraram aliviados quando o produto entrou na lista de exceções da tarifa de Trump. Os últimos dias foram de angústia:
— Estamos sem norte. As indústrias não sabem se compram fruta ou não. A safra está em andamento, mas a colheita parada, sem preço para a fruta — disse Leandro Rubini, presidente da Cooperativa Mista dos Agricultores Familiares de Liberato Salzano e Região (CoopSalzano).
Com a lista de exceções, a situação mudou, mas ainda há indefinição sobre as vendas para que as indústrias possam, enfim, definir o preço da fruta. A maior parte da colheita acontece de setembro em diante, o que dá margem para a negociação.
Outras cidades
Entre as cidades da metade norte que podem ter impacto direto com as tarifas de Trump, segundo lista da Fecomércio, estão Três de Maio, Nonoai e Frederico Westphalen. Também podem ser afetados os municípios de Sarandi e Lagoa Vermelha, devido às vendas da indústria moveleira.
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