
Depois de uma sequência de temporais que provocaram alagamentos, granizo e ventos fortes no norte e noroeste do Estado, a maior preocupação se volta para a chegada da primavera. A previsão, segundo especialistas, é de que o El Niño ganhe força a partir de outubro, com aumento de chuvas em um período sensível para as lavouras de inverno.
Embora o fenômeno influencie todo o Sul do Brasil, a tendência é que o norte e, principalmente, o noroeste gaúcho registrem volumes de chuva superiores aos de outras regiões do Estado. É nessas áreas que os impactos podem ser mais maiores para a agricultura.
O agrometeorologista da Embrapa Trigo, Gilberto Cunha, explica que o fenômeno já está configurado e deve se intensificar entre outubro e dezembro, permanecendo ativo até o início de 2027.
— A metade norte do Rio Grande do Sul costuma receber mais chuva do que a metade sul durante episódios de El Niño. Dentro do Estado, o noroeste também registra precipitações mais intensas do que o leste, principalmente na primavera, quando grandes sistemas meteorológicos atravessam a região — afirma.
Segundo Cunha, os temporais registrados nas últimas semanas provocaram danos localizados, como erosão, alagamentos em áreas baixas e perdas pontuais em algumas propriedades. No entanto, os maiores danos na agricultura devem ser nos próximos meses.
Isso porque o trigo, principal cultura de inverno da região, ainda está em fase inicial de desenvolvimento. Os maiores riscos aparecem na primavera, quando o excesso de umidade favorece doenças e dificulta a entrada das máquinas nas lavouras para a aplicação de fungicidas e outros manejos.
— As doenças de espiga dos cereais de inverno são favorecidas pelas chuvas frequentes. Muitas vezes o produtor não consegue entrar na lavoura no momento adequado para fazer o controle, o que pode comprometer a produtividade e a qualidade dos grãos — explica.
Trigo e canola ameaçados pelo El Niño
Além do trigo, a canola também preocupa. A cultura, que ampliou a área de cultivo significativamente na região nesta safra, é bastante sensível ao excesso de chuva durante a floração e o enchimento de grãos.
O gerente regional da Emater/RS-Ascar, Oriberto Adami, afirma que o cenário já exige atenção. Segundo ele, a regional de Passo Fundo reúne cerca de 78 mil hectares de trigo e aproximadamente 35 mil hectares de canola.
— A canola entrou na fase de floração e é uma cultura muito sensível ao excesso de chuva, ao granizo e aos ventos fortes. Se essas condições persistirem até a colheita, podem ocorrer perdas importantes de grãos — afirma.
No trigo, ainda não é possível calcular prejuízos, mas o excesso de umidade já interfere no desenvolvimento das plantas. Conforme Oriberto, parte do nitrogênio aplicado na adubação pode ser perdida pela lixiviação, enquanto a erosão causada pelas enxurradas compromete a qualidade do solo para as próximas safras.
Em razão das projeções do fenômeno, Cunha orienta que a estratégia dos produtores nos próximos meses será acompanhar de perto a previsão do tempo. Em um cenário de El Niño, as janelas para aplicação de fertilizantes, defensivos e para a própria colheita tendem a ser menores.
— Quando a lavoura estiver pronta, será preciso colher o quanto antes. Em anos de El Niño, esperar por vários dias de tempo firme pode significar perda de qualidade dos grãos devido às chuvas frequentes — diz.
Os especialistas ressaltam que ainda não há um cenário de perdas generalizadas no norte e noroeste do Estado. Porém, com a aproximação da primavera e a expectativa de fortalecimento do fenômeno, a tendência é de que a atenção do setor agrícola aumente nas próximas semanas.





