
Por Deniz Anziliero, diretor da Escola do Agronegócio da Atitus Educação
O calendário do agronegócio brasileiro entrou oficialmente em movimento na segunda-feira (9), com a abertura da Show Rural Coopavel, em Cascavel, no Paraná. No mesmo dia, outro movimento simbólico acontece: o lançamento oficial da Expodireto Cotrijal em Porto Alegre, ritual que, ano após ano, antecipa os grandes debates que ganharão corpo em março, em Não-Me-Toque.
Esse duplo marco deixa claro que as feiras do agro não são apenas eventos comerciais. Elas funcionam como termômetros do setor, revelando expectativas, tensões e estratégias de um agro que começa 2025 sob forte pressão. Mais do que vender máquinas ou apresentar soluções digitais, esses encontros se propõem cada vez mais a provocar reflexão.
O pano de fundo é conhecido. A soja, principal pilar da agricultura brasileira, enfrenta um cenário desafiador. A perspectiva de safra volumosa no Brasil e na América do Sul limita qualquer reação relevante nos preços. Prêmios pressionados, dólar instável e um mercado internacional abastecido reduzem margens e aumentam a cautela do produtor.
Relatórios recentes alertam que, mesmo com eficiência produtiva, o problema agora está menos na lavoura e mais na conta final.
No Rio Grande do Sul, o contexto é ainda mais sensível. As lavouras de soja entram na fase final de enchimento de grãos sob um regime irregular de chuvas. A estiagem já provocou perdas em diversas regiões, comprometendo o potencial produtivo e ampliando a incerteza sobre o resultado da safra. Clima, neste momento, deixou de ser variável de risco e passou a ser fator determinante.
Esse cenário climático se soma a um tema que precisa ocupar o centro das discussões: o endividamento do produtor gaúcho. Após sucessivas quebras e margens apertadas, muitos agricultores enfrentam um custo de crédito elevado, com pouca flexibilidade financeira. A combinação de preços pressionados, produtividade incerta e juros altos cria um ambiente de fragilidade que não pode ser ignorado.
É justamente aí que feiras como a Show Rural e a Expodireto Cotrijal precisam assumir um papel mais estratégico. Não basta mostrar inovação; é preciso debater modelos de financiamento, gestão de risco, políticas públicas e caminhos para garantir sustentabilidade econômica ao produtor.
O início das feiras não inaugura apenas uma temporada de eventos. Ele abre uma janela de decisões. Em um ano marcado por clima instável, mercado pressionado e desafios financeiros, o agro brasileiro precisa transformar esses espaços em fóruns de solução — porque, hoje, inovar é tão importante quanto sobreviver.
Deniz Anziliero é diretor da Escola de Agronegócio da Atitus Educação. Entre em contato através do e-mail deniz.anziliero@atitus.edu.br.



