Por Téo Foresti Girardi, fundadora e CEO da GovTech Lab
A cada ciclo eleitoral, o Brasil produz uma pilha invisível de documentos: os planos de governo. Eles existem, estão disponíveis e cumprem a exigência legal. Ainda assim, permanecem entre os textos menos lidos da política brasileira. Não por falta de acesso à internet, tampouco por desinteresse, mas porque confundimos transparência com disponibilização.
Vivemos cercados por portais de transparência, dados abertos, painéis e plataformas digitais. Publicamos mais do que nunca, mas publicar não é necessariamente comunicar. Um dado pode estar aberto e, ao mesmo tempo, ser inacessível para quem precisa compreendê-lo. Essa é uma das contradições da transformação digital brasileira: digitalizamos o acesso, mas preservamos a opacidade.
Um plano de governo com mais de cem páginas, sem síntese, indicadores comparáveis, metas claras ou uma forma simples de acompanhar compromissos é um documento tecnicamente público, mas praticamente fechado. O Brasil aprendeu a digitalizar processos, documentos e serviços, mas ainda precisa aprender a desenhar experiências a partir de quem está do outro lado da tela. Muitas vezes, apenas transferimos para o digital a mesma lógica burocrática que existia no papel.
O cidadão não precisa apenas saber onde encontrar a informação. Precisa entender o que ela significa, comparar alternativas e acompanhar o que foi prometido
O desafio não é apenas disponibilizar informação, mas torná-la compreensível, comparável e útil para a decisão. Isso vale para planos de governo, mas também para orçamentos, políticas públicas, indicadores e decisões administrativas. O cidadão não precisa apenas saber onde encontrar a informação. Precisa entender o que ela significa, comparar alternativas e acompanhar o que foi prometido.
Se a transformação digital pretende aproximar Estado e sociedade, seu desafio não é publicar mais, mas tornar o que já é público realmente acessível. Porque informação que ninguém consegue interpretar continua sendo uma forma sofisticada de segredo. Um governo pode ter os dados abertos, mas, se o cidadão não consegue lê-los, compará-los e transformá-los em decisão, o sistema continua operando em código fechado.
