Por Carla Cabral Lena Souto, promotora de Justiça
Quando se diz que mais de 800 crianças e adolescentes vivem hoje em serviços de acolhimento institucional em Porto Alegre, parece fácil guardar a estatística e esquecer quem existe dentro dela. Mas experimente substituir cada número por um nome: Carolina, Mateus, Vitória. Depois, outros nomes. Centenas deles. Alinhados, completariam quase três páginas desta edição do jornal. Eles têm as mais diversas idades, são bebês, crianças e adolescentes. São ao mesmo tempo parecidas e paradoxalmente diferentes as suas histórias de negligência, abandono ou violência.
O acolhimento existe para proteger. No entanto, quando uma criança ingressa no acolhimento institucional, frequentemente se torna invisível para a sociedade. Sabemos que ela está protegida em algum lugar e isso parece suficiente. Mas não é. Estar a salvo do perigo imediato não elimina a necessidade do abraço, do olho no olho, da história antes de dormir.
Ainda não incorporamos plenamente a cultura do acolhimento familiar
Receber uma criança em casa e dela cuidar até que ela volte à família de origem ou seja adotada. Contar histórias, ouvir e ser segurança. Doar o tempo e com isso criar uma nova perspectiva de futuro. Plantar memórias de proteção. Compartilhar os sorrisos e os almoços. A vida simples de não agressão e de cuidado que todos nós merecemos. Isso é acolhimento familiar. É diferente de adoção. Não é apadrinhamento.
Ainda não incorporamos plenamente a cultura do acolhimento familiar. Talvez pela confusão entre acolher e adotar. Talvez porque o caráter temporário desperte medo da despedida. Mas a possibilidade de sofrer com a separação não pode falar mais alto do que o direito de uma criança de ser cuidada. O vínculo não perde seu valor porque tem duração limitada. Os 800 jamais serão apenas um número. São Carolina, Mateus, Vitória: crianças que estão esperando não apenas uma decisão sobre seu futuro, mas o direito de viver o presente em família e construir novas referência de segurança e amor.



