Por Gabriela Ferreira, consultora em inovação e professora da PUCRS
Quando foi que a verdade passou a ser opcional? Neste momento distópico em que vivemos, parece que a verdade é uma coisa e estar certo é outra. Em princípio, o objetivo ideal de uma discussão – uma conversa, não necessariamente uma briga – poderia ser simples: descobrir quem está certo e, nesse caso, a realidade é o árbitro. Hoje, porém, muitas discussões parecem funcionar de outra maneira: descobrir quem consegue convencer mais pessoas de que está certo. Na primeira opção, os fatos definem. Já na segunda, o que importa é a capacidade de fazer com que as outras pessoas acreditem em nós, seja verdade ou não o que falamos.
É assim com as fake news: as pessoas culpam a internet pela sua disseminação, mas isso é o velho "matar o carteiro" se não gostamos da mensagem que a carta traz. A responsabilidade sempre é de quem espalhou a notícia falsa, não da tecnologia, e esses problemas ocorrem muito antes de que ela nos colocasse nesta situação. Por falar em distopia, George Orwell relatou bem como a disputa pela verdade começa pela linguagem. No livro 1984, controlar as palavras era uma forma de controlar o que as pessoas podiam pensar e a linguagem deixava de descrever a realidade e passava a criá-la.
Condenamos achados científicos que nos tiram da nossa bolha de conforto
O Edelman Trust Barometer 2025 indica que a percepção de que governantes, executivos e jornalistas mintam intencionalmente atingiu o nível mais alto da história, com 70% da população acreditando que líderes tentam enganar o público de propósito.
Para a verdade, é bom que essa desconfiança seja alta, mas o que estamos fazendo com ela, se, por outro lado, acreditamos em ativos milagrosos e condenamos achados científicos que nos tiram da nossa bolha de conforto? As pessoas acreditam em mentiras porque não sabem qual é a verdade ou porque preferem escolher a sua realidade?
O título deste artigo é inspirado no documentário de Al Gore que, há tempo, nos alertou de algo que resistimos a ver. Talvez a verdade não tenha deixado de existir, apenas tenha ficado inconveniente demais.



