Por Paula Nicolay, advogada no agronegócio, fundadora da agtech GiroLend e mestranda em Agronegócios
Neste semestre, o Rio Grande do Sul voltará a conviver com um velho conhecido. As chuvas do fim de julho já são o primeiro alerta. O El Niño, um dos mais fortes já registrados, segundo o Inmet, com pico na primavera e no verão, chegará ao sul do país na forma que mais nos assusta, com água demais. Quem viveu 2024 não precisa de muita imaginação.
Esse peso não fica dentro da porteira. O Estado responde por mais de dois terços do arroz brasileiro e sustenta a cadeia agroindustrial mais diversa do país. Estimativas apontam que ele pode acrescentar de 1 a 3,4 pontos percentuais à inflação dos alimentos. O clima que castiga o campo gaúcho encarece o almoço de milhões de famílias.
A inovação já permite compreender riscos e decidir melhor
Por muito tempo, restava ao produtor uma única estratégia: torcer. Hoje, ninguém controla o clima, mas a inovação já permite compreender riscos e decidir melhor. O que diferencia propriedades mais resilientes não é a chuva que recebem, é o preparo construído antes de ela chegar.
Há, porém, um obstáculo. O produtor confia no que viu dar certo no vizinho, não no catálogo reluzente. Já lhe prometeram muito e entregaram pouco. Esse "ver para crer" não é resistência à inovação, é prudência de quem arrisca o próprio patrimônio a cada safra.
Mais do que máquinas, tecnologia significa transformar informação em decisão. Previsão climática de precisão, sensoriamento, plantio direto, escolha de cultivares e monitoramento da lavoura não impedem uma enchente, mas ampliam a capacidade de adaptação.
Seria ingênuo ignorar o endividamento do campo. Ainda assim, nem toda adaptação exige grande desembolso, e não mitigar riscos dificilmente sai mais barato.
A janela não se mede em anos, mas em semanas. A chuva virá, forte, e não vamos poder impedi-la. A inovação não torna o agro menos dependente do clima, torna o produtor menos dependente da incerteza.



