Por Daniel Guanaes, Ph.D. em Teologia pela Universidade de Aberdeen, pastor presbiteriano, psicólogo clínico e autor do livro “Cuidar de Si” (Ed. Mundo Cristão)
Os avanços tecnológicos alteraram a nossa percepção do tempo aceitável. A tecnologia agilizou tarefas, e qualquer espera passou a ser vista como “erro do sistema”. Aceleramos o dia, mas nos acostumamos a um ritmo que nem sempre é o da experiência humana. Assim, cresce a intolerância aos processos naturais.
A comunicação ganhou eficiência, o acesso à informação se ampliou e processos antes feitos em dias agora levam minutos. Alguns segundos para carregar uma página, uma mensagem sem resposta ou um atraso na entrega parecem excessivos. Aplicamos a lógica da resposta imediata também àquilo que nunca funcionou dessa maneira.
Não perdemos a capacidade de esperar, mas a familiaridade com ela
Quando nos habituamos a recompensas rápidas, reduzimos nossa tolerância aos processos lentos. Não perdemos a capacidade de esperar, mas a familiaridade com ela.
Esperamos relacionamentos consolidados rapidamente, que a terapia produza resultados imediatos e que hábitos mudem sem recaídas. O processo não falha quando isso não ocorre, mas talvez esteja obedecendo ao ritmo que lhe pertence.
Automatizar tarefas é diferente de transformar experiências humanas. A automação depende de tecnologia, organização e método. A transformação também depende do tempo. Aceleramos uma entrega, mas não a construção da confiança; reduzimos uma viagem, mas não um luto. Há processos que não podem ser comprimidos.
Muito antes de a psicologia cuidar da ansiedade e da frustração, tradições espirituais já tratavam a espera como parte da nossa formação. Esperar não era desperdício, mas o espaço em que a própria pessoa era transformada.
Ainda assim, tentamos submeter a experiência humana ao ritmo das máquinas. Ignoramos que a capacidade de amar, confiar e amadurecer continua seguindo um calendário que a inovação não acelerou. Não devemos abrir mão da tecnologia, que ampliou nossas possibilidades. Mas precisamos ter a consciência de que nem tudo o que importa é instantâneo. Mudanças mais importantes da vida ainda acontecem num lugar em que pouco gostamos de estar: no tempo da espera.

