Por Taís Seibt, jornalista, doutora em Comunicação e pesquisadora do Instituto de Cultura Digital da Unisinos com projeto apoiado pela Fapergs
Pesquisa recente do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) traduziu em dados o que já se observa na prática: 72% dos usuários de Internet se informa por redes sociais. A novidade crítica do estudo é o baixo índice de confiança nas informações, já que quase metade (48%) reportaram desconfiar "sempre" ou "na maioria das vezes" de notícias de veículos tradicionais. A desconfiança foi menor para informações de "amigos e/ou familiares em redes sociais" (39%) e "informações oficiais e mídias públicas" (39%).
Desconfiar, porém, não se traduz em busca por informação correta: os usuários deixam de verificar por "esquecer" (36%), não ter tempo (33%) ou não ter interesse (33%). Preocupa a naturalidade com que se admite que é difícil reconhecer conteúdos autênticos, mas se rejeita conferir a tarefa a quem tem método e experiência para apontar o caminho.
O jornalismo, historicamente, cumpre o ofício de apurar fatos com base em evidências. É menos sobre verdade e mais sobre plausibilidade. O fact-checking, que se desenvolveu copiosamente na última década, cristaliza esse propósito com mais transparência: expõe o "caminho do pão" para quem quiser seguir o rastro e tirar suas próprias conclusões. Com honestidade de ambas as partes, leitor e repórter chegam ao mesmo veredito.
Gostar ou não de uma notícia não faz dela verdadeira ou falsa
Não que não haja mau jornalismo, nem que outras fontes sejam desprezíveis. A questão é o método. As enchentes de 2024 são a prova prática de que informação correta importa. Quando amigos e familiares, esses em quem confiamos, compartilhavam informações sem checar, foi na imprensa tradicional e nas fontes públicas oficiais que nos socorremos para ter certeza do que fazer. Os próprios entrevistados na pesquisa do CGI atestaram: verificar dá trabalho, toma tempo. Por que não confiar em quem se dedica ao serviço em tempo integral?
Urge conversar sobre consumo midiático, compreender o trabalho jornalístico e criticá-lo quando falha, desde parâmetros técnicos, não por simpatia. Gostar ou não de uma notícia não faz dela verdadeira ou falsa. Um fato que nos decepciona pode ser plausível, temos de lidar com isso. Há que se desconfiar de quem fala só o que queremos ouvir.




