Por Fernando Goldsztein, fundador da The Medulloblastoma Initiative, conselheiro da Children’s National Foundation e MBA — MIT, Sloan School of Management
Eram 22 horas numa noite de inverno chuvosa em Porto Alegre – há uns 35 anos. Eu dirigia meu carro pela Avenida Carlos Gomes voltando da PUCRS. Naquela época, a avenida ainda não havia se transformado na Perimetral de hoje. Porém, mesmo sendo bem mais estreita, ainda sem corredor de ônibus e com iluminação precária, a Carlos Gomes já era considerada uma das vias mais movimentadas da cidade.
De repente, do nada, surgiram dois cavalos bem no meio da pista. Consegui desviar e, como reflexo, parei o carro e tratei de tentar espantá-los dali. Os animais, quase invisíveis na avenida escura e molhada, poderiam causar um acidente grave. Assim que comecei a tentar "pastorear"os cavalos, vi que outro motorista teve a mesma reação. Nós dois, juntos, conseguimos fazer com que os cavalos fossem para uma rua lateral, onde não havia perigo. Só depois da missão cumprida, naquela escuridão, foi que percebi que o outro motorista era o Zé Sakakibara, meu colega da faculdade.
De repente, do nada, surgiram dois cavalos bem no meio da pista
Voltemos agora para o dia de hoje. Estou na Austrália, onde vim participar de um congresso sobre câncer infantil representando o MBI, organização da qual sou fundador. É a minha primeira vez aqui na terra dos cangurus.
Um pouco antes da viagem, fui surpreendido com uma inusitada mensagem do Zé. Ele viu um post nas redes sobre a minha participação no congresso na Austrália e resolveu dar sinal de vida. Não nos comunicávamos desde o século passado. Tenho as minhas restrições com relação às redes sociais, mas, de fato, elas aproximam as pessoas que estão longe.
E foi uma grata surpresa reencontrar o Zé depois de tantos anos. Além de boas conversas pelos pubs de Sydney recordando os velhos e bons tempos, ainda tive um guia de mão cheia no meu tempo livre na cidade.
Mesmo sem sermos muito próximos na época da faculdade, e de não nos encontrarmos a décadas, acabamos criando um vínculo forte por ocasião daquele inusitado episódio dos cavalos em plena Carlos Gomes. Além de ter sido uma experiência inesquecível – lembro até hoje de cada detalhe, ela serviu para mostrar que partilhamos de valores muito parecidos. Afinal, quantos jovens de 20 anos, como eu e meu amigo Zé, parariam o carro numa noite fria e chuvosa para proteger outros motoristas?
