Por Adriano Skrebsky Reinheimer, engenheiro civil, servidor público e ex-presidente do Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Lago Guaíba (2018-2020)
As enchentes de 2024 mudaram a forma como o Rio Grande do Sul enxerga o Guaíba. Fala-se muito em diques, dragagem, casas de bombas e reconstrução, pautas indispensáveis. Mas talvez estejamos esquecendo algo crucial: a forma como planejamos e governamos o Sistema Guaíba continua adequada aos desafios das mudanças climáticas? Durante décadas, o debate limitou-se à discussão sobre se o Guaíba é um rio ou um lago. A ciência já mostrou que essa dicotomia pouco explica um sistema com dinâmicas tão distintas ao longo de sua extensão.
O Delta do Jacuí possui comportamento essencialmente fluvial; o Lago Guaíba é predominantemente lacustre; e a transição para a Laguna dos Patos apresenta hidrodinâmica própria. Se a natureza reconhece essas singularidades, por que não considerá-las na gestão?
Essa hipótese exige estudos, modelagens e amplo debate
Não proponho alterar os limites da atual Bacia Hidrográfica do Lago Guaíba nem defender mudanças precipitadas na estrutura do seu comitê. O que proponho é discutir a conveniência de compartimentar o Sistema Guaíba, para fins de planejamento, monitoramento e adaptação climática, em três setores hidroambientais: Alto Guaíba (Arquipélago Delta), Médio Guaíba (Lago Guaíba) e Baixo Guaíba (Golfo Itapuã). Ambientes diferentes têm desafios específicos quanto a cheias, sedimentos, qualidade da água e ocupação do solo. Estratégias específicas para cada setor podem tornar a gestão mais eficiente, sem perder a visão integrada do todo. Essa hipótese exige estudos, modelagens e amplo debate entre universidades, órgãos gestores, municípios, o comitê e a sociedade civil.
As mudanças climáticas desafiam nossas obras e também nossos modelos de gestão. Seria oportuno que o Conselho Estadual de Recursos Hídricos constituísse um grupo de trabalho para avaliar esse conceito. O modelo concebido há três décadas continua sendo o mais adequado para o século 21?
