Por Alex Pipkin, Ph.D. em Administração e consultor empresarial
Na teoria da negociação existe um princípio elementar. Posições dividem; interesses aproximam. As posições revelam aquilo que cada parte pretende conquistar. Os interesses revelam aquilo que ambas desejam preservar.
Quando deixamos de discutir apenas o que nos separa e voltamos a enxergar o que temos em comum, os acordos se tornam possíveis.
Esquecemos que essa também é a missão da cultura.
Enquanto a política se ocupa das diferenças, a cultura preserva aquilo que permite que elas coexistam. Ela não existe para organizar a sociedade em identidades concorrentes, nem para transformar divergências em fronteiras permanentes. Sua função é manter vivo o elo invisível que liga gerações por meio da língua, da memória, dos costumes, da arte, dos símbolos e das histórias que fazem milhões de pessoas reconhecerem-se como parte de algo maior do que elas próprias.
É justamente por isso que a cultura não pertence ao governo de ocasião nem pode ser apropriada por qualquer projeto de poder. Ela não nasce da vontade de quem governa, mas da experiência compartilhada de um povo. Não se decreta, não se planeja e não se impõe. Forma-se lentamente, selecionando, ao longo do tempo, aquilo que permanece porque fez sentido para a vida em comum.
Nenhuma sociedade se desfaz porque seus cidadãos pensam diferente
Quando a cultura abandona essa vocação, deixa de aproximar interesses para reforçar posições. O pertencimento a uma história compartilhada cede lugar ao pertencimento a grupos cada vez mais fechados. A memória comum perde espaço para identidades circunstanciais e a lógica da disputa política ocupa justamente o ambiente que deveria impedir que toda diferença se transformasse em antagonismo.
Nenhuma sociedade se desfaz porque seus cidadãos pensam diferente. Ela começa a se desfazer quando deixa de reconhecer aquilo que continua sendo maior do que suas diferenças. A cultura existe para preservar esse bem comum invisível. Não para dizer quem está certo ou errado, mas para lembrar quem somos antes das diferenças.

