Por Rogério Sarmento-Leite, médico, professor da UFCSPA e membro titular da Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina
Há poucas semanas, minha família doou ao Museu de História da Medicina do Rio Grande do Sul a máscara mortuária de meu bisavô, o professor Eduardo Sarmento Leite. O "Velho Sarmento", como era reverenciado por seus pares e discípulos. Preservada desde seu falecimento, em 1935, ela atravessou gerações como um símbolo de respeito e memória. Agora, entendemos que essa peça pertence não apenas aos seus descendentes, mas também à história da medicina gaúcha.
Máscaras mortuárias preservam mais do que um rosto. Preservam valores.
Ao olhar para ela, não vemos só as feições de um homem. Vemos alguém que dedicou sua inteligência, seu trabalho e até parte de seu patrimônio pessoal à construção da medicina em nosso Estado.
O que mais impressiona não são os cargos que ocupou
Fundador e consolidador da Faculdade de Medicina de Porto Alegre, atual UFRGS, professor, diretor, cirurgião e protagonista da organização sanitária gaúcha, Eduardo Sarmento Leite enfrentou epidemias, formou médicos e ajudou a fortalecer instituições que permanecem até hoje, entre elas a Santa Casa de Misericórdia.
Mas o que mais impressiona não são os cargos que ocupou. São os relatos sobre sua dimensão humana. Historiadores, colegas e antigos alunos descrevem um homem movido pelo espírito público, pela generosidade e pelo compromisso com o ensino. Conta-se que, em seu funeral, seus alunos fizeram questão de carregar seu caixão. Poucas homenagens traduzem de forma tão autêntica o legado de um professor.
Ao doar essa máscara, nossa família compartilha um objeto histórico e uma história de dedicação ao bem comum e de compromisso com as futuras gerações. Em tempos em que se discute o futuro da medicina, vale recordar que os alicerces lançados por suas ações permanecem os mesmos: conhecimento, generosidade, compromisso com o próximo e espírito de serviço. São esses valores, mais do que a própria máscara, que merecem ser preservados.


