Por Fernando Goldsztein, fundador da The Medulloblastoma Initiative, conselheiro da Children’s National Foundation e MBA — MIT, Sloan School of Management
Difícil expressar em palavras a tragédia ocorrida na Ponte do Esqueleto, em Limeira, no estado de São Paulo, neste final de semana, que tirou a vida da jovem Maria Eduarda Guimarães, de apenas 21 anos.
O acontecimento macabro foi gravado por diversos celulares e pode ser visto por diferentes ângulos. Maria Eduarda aparece sendo carregada por três homens, responsáveis – ou, melhor dizendo, irresponsáveis – pela operação do rope jump. Sem perceber que não haviam amarrado a moça à corda que a sustentaria, eles a carregam até a extremidade da ponte e a arremessam para a morte.
A cena é absolutamente surreal, para dizer o mínimo. Remeteu-me imediatamente ao filme Indiana Jones e o Templo da Perdição. O enredo gira em torno de uma seita que realizava rituais satânicos com sacrifícios humanos. Eles lançavam suas vítimas vivas em poços profundos ou precipícios, tal qual a Ponte do Esqueleto.
São tantas as tragédias presentes no nosso cotidiano que nada mais parece nos espantar. Basta ligar a TV ou acessar as redes sociais e pronto: certamente estará sendo noticiado um latrocínio, um feminicídio ou, quem sabe, um desvio de bilhões. Porém, mesmo amortecidos por tantas notícias ruins, este episódio causou enorme comoção.
Existem, até agora, muitas perguntas e poucas respostas. De quem era a responsabilidade pela sinalização e pelo acesso à ponte abandonada? Havia alvará municipal para a atividade? Existia algum tipo de licença, regulamentação ou fiscalização por parte da prefeitura? Que tipo de capacitação tinham aqueles infelizes profissionais que esqueceram de amarrar a corda?
Todas essas questões ainda precisam ser devidamente apuradas, mas, como é comum no Brasil, provavelmente não haverá maiores consequências nem penalidades. E é exatamente aí que mora o problema: na impunidade.
O que permitiu que esse erro ocorresse foi uma falha estrutural muito maior
Esperemos que a morte de Maria Eduarda não tenha sido em vão. Que se acenda um alerta em nossa sociedade. No Brasil, a combinação de fiscalização insuficiente, legislação permissiva, processos demorados, penas relativamente leves e indenizações irrisórias estimula o improviso, o jeitinho e a negligência, além de transmitir a sensação de que o custo de descumprir regras é, muitas vezes, menor do que o custo de cumpri-las.
Portanto, é importante não nos atermos apenas na corda que não foi amarrada. A causa imediata da tragédia foi sim um erro humano, não há dúvidas. Mas, o que permitiu que esse erro ocorresse foi uma falha estrutural muito maior. Enquanto não encararmos esta realidade, continuaremos lamentando tragédias que poderiam – e deveriam – ser evitadas.

