Por João Cláudio Pizzato Sidou, promotor de Justiça
Há lugares que deixam de ser lugares, passam a ser referência simplesmente porque a vida passou por ali vezes demais para que seja diferente. Para quem estudou no Julinho nos anos 1990, o coreto era isso: um ponto de encontro que, de tão frequentado, virou referência para uma geração.
A recente notícia de demolição traz a sensação de que alguém removeu, sem aviso nem consulta, uma parte da história.
Lembro daquele espaço com a nitidez das coisas que importaram de verdade: o movimento e a sensação permanente de que alguma coisa estava começando ou acabando ali. Era a época do grunge e dos cabelos compridos de uma juventude que precisava se encontrar para existir como grupo, quando grupo não era no celular.
Era também o tempo do "Fora Collor", de uma efervescência política que permeava os intervalos com uma força que hoje parece improvável. Talvez não entendêssemos tudo com a profundidade que achávamos. Mas sabíamos que o coreto era um dos lugares em que importava estar, e onde as coisas se misturavam sem cerimônia nem hierarquia.
O currículo não registra o coreto. Ele não consta em nenhuma grade ou plano de aula. Mas boa parte do que se aprende numa escola acontece justamente assim: no intervalo, no encontro e no convívio.
Incapaz de resolver por outros meios, escolheu saída fácil
Para quem via de fora, talvez fosse apenas um coreto ocupando espaço. Para quem passou pelo Julinho, não era bem assim. Referências não desaparecem só quando são esquecidas – mas também quando alguém resolve que não valem mais a pena.
A demolição revela algo sobre quem decidiu. Uma administração que, incapaz de resolver por outros meios, escolheu saída fácil. Talvez houvesse dificuldades de conservação ou segurança. Mas entre abandonar e demolir há distância considerável, e aí cabe uma conversa com a comunidade escolar.
Quando isso não acontece, a demolição deixa de ser solução e passa recado: não valia o esforço. E esse recado, mesmo que involuntário, diz mais sobre quem decide do que qualquer justificativa posterior.


