Por David Sena, médico e co-fundador da GestãoDS
A inteligência artificial já deixou de ser uma promessa para se tornar parte da rotina da saúde. Mais do que uma tendência, ela vem assumindo tarefas repetitivas e burocráticas, permitindo que médicos e equipes dediquem mais tempo ao que realmente importa: o cuidado com o paciente.
Atividades como agendamento de consultas, organização de prontuários e gestão de dados podem ser automatizadas, aumentando a eficiência dos serviços e apoiando a tomada de decisões. O desafio, porém, não está apenas na capacidade técnica dessas ferramentas, mas na definição de responsabilidades sobre seu uso.
Nesse contexto, a Resolução CFM nº 2.454/2026 representa um marco para a medicina brasileira. Pela primeira vez, o país passa a contar com diretrizes específicas para o desenvolvimento e a aplicação da inteligência artificial na prática médica. A norma estabelece critérios de governança, monitoramento e responsabilização, trazendo mais segurança para profissionais e pacientes.
O desafio está na definição de responsabilidades sobre seu uso
O objetivo é equilibrar inovação e proteção. Afinal, embora sistemas de IA já apresentem resultados relevantes na análise de exames e na identificação de padrões clínicos, suas respostas dependem da qualidade dos dados utilizados e estão sujeitas a limitações, vieses e erros de interpretação.
Por isso, um dos pontos centrais da resolução é deixar claro que a inteligência artificial deve atuar como ferramenta de apoio, e não como substituta do médico. A decisão final permanece sob responsabilidade do profissional, que mantém autonomia para aceitar ou rejeitar recomendações geradas por sistemas automatizados quando elas não fizerem sentido clínico.
A norma também reforça a importância do uso crítico da tecnologia. Cabe ao médico conhecer as limitações das ferramentas utilizadas e registrar sua aplicação no prontuário. Ao mesmo tempo, a regulamentação protege o profissional ao afastar sua responsabilização por falhas exclusivamente atribuíveis ao sistema, desde que seu uso tenha ocorrido de forma adequada.
Outro aspecto relevante é a proteção de dados. A resolução fortalece a responsabilidade dos profissionais na garantia da confidencialidade e do uso ético das informações dos pacientes, em conformidade com a legislação vigente.
Ao estabelecer limites e responsabilidades, a Resolução nº 2.454/2026 não cria barreiras para a inovação. Pelo contrário: oferece as condições necessárias para que ela avance de forma segura, transparente e confiável. A medicina seguirá cada vez mais orientada por dados, mas continuará dependendo daquilo que nenhuma tecnologia consegue substituir: o julgamento clínico, a empatia e a relação humana entre médico e paciente.
