Por Lisiara Simon, arquiteta, urbanista e designer à frente da Trino Arquitetura
No Dia Mundial da Reciclagem, celebrado em 17 de maio, penso muito sobre a forma como aprendemos a enxergar o lixo.
Eu desenho com aquilo que deveria estar no descarte. E, quando vejo o móvel pronto, me emociono. Porque tudo passa a fazer mais sentido. Deixa de ser apenas matéria para se tornar movimento.
Vai além do móvel. Existe ali uma história, memória, vestígios e marcas do tempo.
Com o passar dos anos, percebi que minha curiosidade, alinhada à minha percepção de mundo, poderia iniciar um movimento construído junto de outras pessoas, levando adiante aquilo em que acredito. Hoje, não vejo mais o lixo como algo a ser descartado, mas como algo a ser transformado.
Foi através da arquitetura e do design que encontrei uma maneira de provar que isso é possível. Comecei a desenhar móveis oriundos de materiais descartados enquanto pesquisava sistemas construtivos alinhados à mitigação de carbono e a uma nova forma de pensar o habitar.
Aquilo que hoje parece bonito, sofisticado e novo, muitas vezes nasceu no lixo - naquele lugar de onde desviamos o olhar e onde as coisas parecem perder o valor.
Esses materiais já tiveram outras vidas. Já foram casa, mesa, banco, placa, matéria esquecida. Hoje voltam a existir carregando marcas, memória e histórias.
O problema não está apenas no descarte, mas na forma como fomos ensinados a consumir
Como arquiteta e criadora, me recusei a aceitar a ideia da matéria como lixo. Passei a enxergar valor no resíduo: numa madeira abandonada, num acrílico descartado, num papel deixado de lado.
Com o tempo, também entendi que o problema não está apenas no descarte, mas na forma como fomos ensinados a consumir. Compramos sem pensar de onde veio, como foi feito e, principalmente, para onde irá quando perder o valor em nossas vidas.
Tudo aquilo que chamamos de lixo um dia exigiu árvore, água, energia, extração e tempo para existir.
E junto dessa transformação existem pessoas. Pessoas que caminham pelas ruas recolhendo aquilo que a sociedade rejeita em troca de poucas moedas para sobreviver e alimentar suas famílias.
Catadores e agentes de triagem fazem parte dessa engrenagem invisível e essencial da economia circular. São eles que ajudam diariamente a salvar o planeta do excesso e da falta de consciência que criamos.
Por isso, cada peça reutilizada é mais do que design. É posicionamento, memória e responsabilidade. Talvez, no fundo, tudo isso nunca tenha sido apenas sobre móveis. Mas sobre o mundo que escolhemos deixar existir através das nossas escolhas.


