Por Abrão Slavutzky, psicanalista
Nos anos 50 do século passado, não lembro de escutar a palavra machista. O machismo imperava na educação das crianças e, felizmente, apareceram livros como O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir. Muito aos poucos, cresceu o movimento feminista e as mulheres foram se libertando, ainda mais após a geração 68. Aí aumentou a crueldade dos homens, não aceitaram as mulheres mais livres, com mais conhecimentos.
Há poucos dias, um adolescente convidou a namorada de 12 anos para ir a sua casa e, ao chegarem, havia sete jovens. Ocorreu um estupro coletivo que foi filmado e vendido por cinco reais. Não se pode pensar como um caso isolado, há raízes milenares na prepotência dos machos e no desprezo às mulheres. A Bíblia começa no Gênesis, em que Eva teria pecado ao comer da árvore do conhecimento. Foi graças à curiosidade dela que nasceu a cultura da humanidade. As raízes da nossa onipotência passam também pela velha Grécia, por Roma, pela Idade Média, e seguem tanto no mundo ocidental como no oriental, bem como em todas as religiões. No século 20 é que se iniciam os grandes movimentos pelos direitos do voto feminino.
No Brasil ocorrem cerca de 80 mil estupros anualmente, afora os que não são registrados. Foram 1.518 feminicídios no ano passado. Há poucos dias, na Câmara de Vereadores de Porto Alegre, um vereador arrancou o microfone das mãos de uma colega. O mundo machista resiste a lutar contra a violência.
A idealização do homem gerou um sentimento de superioridade arrogante
Ainda há certa indiferença neste país que já se sonhou cordial. Há muitos livros sobre o tema, como: Rumo à uma Psicanálise Emancipada, de Laurie Laufer, que parte de Freud, Lacan e Foucault para repensar a condição humana.
A persistente idealização do homem gerou um sentimento de superioridade arrogante. É preciso crescer e apoiar o feminismo, assim todos podemos melhorar. Pensar com carinho e gratidão em tudo que recebemos das mães, avós, esposas, tias, irmãs, primas e amigas. Difícil o desafio, mas não impossível. Ah, tardei em escrever sobre o machismo!


