Por Daniel Randon, presidente da Randoncorp e presidente do Conselho Superior do Transforma RS
Embora socialmente relevantes, programas como os de crédito consignado para aposentados e o Novo Desenrola não são políticas estruturais de crescimento e desenvolvimento. São ferramentas pontuais de alívio. É preciso olhar além do curto prazo, tanto pela ótica empresarial quanto de trabalhadores. Investimento, renda e consumo caminham juntos, incluindo os demais setores da economia. Os recursos que saem do FGTS também impactam o setor habitacional.
Enquanto parte relevante da renda é direcionada ao pagamento de dívidas, investe-se menos em máquinas, tecnologia, eficiência logística, energia limpa e maior produção
O maior acesso ao crédito, a baixa capacidade de poupança e o elevado custo do dinheiro cobram um preço alto das empresas. Com menor capital para investimento produtivo, aumenta a dependência de financiamento caro e reduz a chance de modernização, inovação e ganho de escala. Juros elevados não afetam só o consumo; reduzem a competitividade da indústria nacional.
Enquanto parte relevante da renda é direcionada ao pagamento de dívidas, investe-se menos em máquinas, tecnologia, eficiência logística, energia limpa e maior produção. Resultado: produtividade baixa, crescimento limitado e maior dificuldade para competir em mercados globais.
Economias sólidas financiam seu desenvolvimento com poupança doméstica e investimento de longo prazo, não com o comprometimento recorrente da renda futura. Juro alto deixa de ser instrumento de política monetária e passa a refletir problemas estruturais: baixa poupança, risco fiscal, insegurança institucional e um modelo que estimula mais o crédito do que o investimento produtivo.
O Novo Desenrola reorganiza dívidas e devolve fôlego financeiro temporário às famílias, mas não substitui uma agenda de crescimento baseada em poupança, investimento e produtividade. Sem isso, a indústria opera com custo de capital elevado, projetos são postergados e o potencial de crescimento nacional permanece subutilizado, ameaçando a criação de empregos e a geração de impostos.
O desafio é sair da lógica do curto prazo e construir um ambiente favorável a decisões de longo prazo. Programas emergenciais aliviam o presente. Só a poupança, o investimento e a produtividade constroem um futuro competitivo e sustentável.
