Por Lúcio Antônio Machado Almeida, fundador do Núcleo de Pesquisa Antirracismo da UFRGS e escritor
Cento e trinta e oito anos após a abolição da escravatura, o contingente liberto (pretos e pardos/miscigenados) não consegue fugir do quadro de desigualdade material no seio do capitalismo brasileiro. Essa disparidade ainda é fruto da condição de elemento servil (escravo/escravizado) vivenciada por quase 400 anos. Embora muitos negros possam projetar um país melhor, a realidade é a persistente e permanente desigualdade material entre negros e brancos, conforme apontam dados recentes de pesquisas do IBGE e do Ipea.
A realidade é a persistente desigualdade material entre negros e brancos
Na atualidade, a presença negra em determinados espaços – inclusive em ambientes recentes, como a internet – não se reverte em mudanças profundas na estrutura material brasileira. Paradoxalmente, muitas lideranças negras antirracistas no futebol, na política, na academia, nas artes e no meio empresarial adotam um discurso radical (por vezes oportunista), mas profundamente dissociado de uma prática efetiva material. Esta última deveria focar na promoção de práticas de solidariedade econômica, na promoção da família negra, na elevação da renda e em outras formas de circulação e materialização de ganhos dentro da própria comunidade.
O resultado é um abismo profundo entre a ilusão de um país em evolução e um Brasil extremamente desigual, que insiste em existir. Uma solução? O Brasil, enquanto Estado e sociedade, está muito longe de uma. Uma sugestão seria a adoção de uma jornada de trabalho reduzida e um alto investimento na educação pública, especialmente nos ensinos Fundamental e Médio.
Ambas as iniciativas atingiriam, em massa, a população negra, visto que o negro é, historicamente, o principal elemento no mercado de trabalho assalariado e também o principal usuário da escola pública. A perspectiva marxista ainda é a válida nesse sentido, é a mudança das condições materiais que muda o modo de viver e de pensar das pessoas. Sem uma base material sólida – casa, comida, renda e tempo –, a consciência política e a ascensão social tornam-se lutas individuais exaustivas em vez de avanços coletivos.
