Por Fernando Goldsztein, fundador da The Medulloblastoma Initiative, conselheiro da Children's National Foundation e MBA - MIT, Sloan School of Management
Resolvi assistir ao filme, muito embora não seja apreciador de filmes de horror. Fantasmas, vampiros e monstruosidades como Frankenstein nunca me deixaram confortável na poltrona do cinema e, por isso, procuro evitar. Porém, as nove indicações e as três estatuetas conquistadas no Oscar me fizeram entender que talvez valesse a pena o sacrifício.
Quase desisti diante da primeira cena, quando o monstro aparece do nada e se insurge contra marinheiros de uma embarcação sueca presa no gelo do Ártico.
A partir daí, o filme começa a ganhar contornos interessantes e, pelo menos para mim, completamente inesperados. Além, é claro, de esbanjar qualidade de produção, o que se refletiu na conquista dos Oscars de melhor maquiagem, melhor figurino e melhor direção de arte.
O enredo se desenrola a partir de duas perspectivas: o relato do criador, Victor, e o relato da criatura. Victor é um menino que cresce subjugado pelo pai, um renomado cirurgião da Suíça do século 19, que tem a obsessão de transformar o filho também em cirurgião. Ainda adolescente, Victor perde a mãe – adorada e idolatrada – de forma traumática e, inconformado, decide que sua missão é recriar a vida a partir da morte. Já quanto ao relato da criatura, deixarei para você mesmo conferir no cinema.
Faz-nos refletir sobre a condição humana e a fragilidade dos relacionamentos
Não obstante haver cenas perturbadoras, especialmente no macabro laboratório de Victor, recheado de cadáveres, o filme surpreende pela sensibilidade do roteiro. Faz-nos refletir sobre a condição humana e a fragilidade dos relacionamentos. Enquanto um se isola por obsessão, em consequência de traumas e abusos, o outro é rejeitado sem escolha. O filme é sobre solidão, abandono, propósito, pertencimento, identidade, busca por aceitação e muitos outros sentimentos que, em maior ou menor grau, estão presentes em todos nós.
Nunca pensei que sairia do cinema comovido após assistir a Frankenstein. Foi, sem dúvida, uma grata surpresa.
Fazendo um esforço para não dar mais spoilers ou criar uma expectativa muito elevada no leitor, vou encerrar logo este texto. E, para tanto, escolho a frase que encerra o filme:
"E assim o coração se partirá, mas, mesmo despedaçado, continuará a viver."


