Por Cassio Grinberg, consultor de planejamento estratégico e autor dos livros "Desaprenda" e "Desinvente"
Procuro fazer, todos os anos, uma viagem de imersão: visito lojas, leio jornais locais, converso com atendentes e me aprofundo em temas que minha empresa passa os meses anteriores investigando.
Nas prateleiras de redes de supermercados na Califórnia está o retrato de algo que é menos nostalgia e mais tendência. Cards Against Humanity, Bad People, Girls Night – jogos com a mesma proposta: fazer pessoas se olharem nos olhos, rirem juntas, sem intermediação da tela.
O Cards Against Humanity nasceu em 2011 de um crowdfunding entre oito amigos entediados. Virou o jogo mais vendido da Amazon e ultrapassou meio bilhão de dólares em receita. Vai de nicho a mainstream: o mercado global de jogos de tabuleiro alcançou quase 13 bilhões de dólares em 2025, com projeção de ultrapassar 20 bilhões até 2034.
Quase metade da geração Z já age para reduzir o tempo de tela
E o motor disso está no comportamento. Segundo o Pew Research, 62% dos adultos americanos se dizem esgotados pelo uso de telas. Na Alemanha, 84% dos jovens admitem usar o celular demais. Quase metade da geração Z já age para reduzir o tempo de tela. O off-line virou o novo luxo.
Quanto mais conectados, mais famintos de presença. E onde há fome, há mercado: cafés de jogos se multiplicam pela Europa. Eventos phone-free se espalham de Berlim a Nova York. Para quem trabalha com planejamento estratégico, a provocação é: quantas empresas estão mapeando essa mudança? Quantas desenham experiências que respondem a essa fome de presença? A tendência não é ser contra a tecnologia – é preencher o vazio que ela deixou.
Hod Lipson, pesquisador da Columbia University, sugere que uma ótima maneira de aproveitar a IA é ficar bom justamente naquilo que ela não consegue fazer. Meu amigo Dado Schneider, que também é gênio, disse que tudo começou quando os pais passaram a empurrar carrinhos de bebê olhando o smartphone, e não mais conversando com eles.
A atenção é o recurso mais escasso do século: negócios que facilitarem conexão real estarão aproveitando uma megaoportunidade. Às vezes, a próxima inovação não está na tela seguinte. Está na mesa ao lado.




