Por Ivana Battaglin, promotora de Justiça do Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS)
O 8 de Março não nasceu da leveza. Nasceu da luta – do trabalho invisível, da exploração e da coragem de mulheres que decidiram não se calar. Nunca foi uma data festiva. Para mim, é um convite à lucidez. E ele se impõe outra vez no Rio Grande do Sul, onde já registramos 20 feminicídios somente neste início de 2026 – número que pode ter mudado quando esta coluna chegar ao leitor.
A violência contra as mulheres não é um desvio eventual
Cada vida interrompida revela uma falha que não é individual, mas coletiva. A violência contra as mulheres não é um desvio eventual; ela ainda estrutura relações, espaços e silêncios.
Reconheço que houve avanços. Mas eles não alcançam todas. A desigualdade segue atravessando o trabalho e o cuidado, limitando o acesso ao poder e, sobretudo, restringindo algo elementar: o direito de existir sem medo. Não consigo tratar essa data como celebração quando tantas mulheres continuam vivendo sob ameaça ou tendo sua autonomia questionada diariamente.
A escritora Audre Lorde afirmou que não seria livre enquanto qualquer mulher permanecesse prisioneira – mesmo que as correntes fossem diferentes das suas. Essa ideia me parece incontornável: liberdade não se fragmenta. Enquanto houver mulheres silenciadas, agredidas ou mortas, a promessa de igualdade seguirá incompleta.
Para o Ministério Público, onde atuo como promotora de Justiça há 28 anos, o 8 de Março não pode ser apenas simbólico. Ele reafirma um dever permanente: fortalecer a rede de proteção, exigir políticas públicas eficazes, responsabilizar agressores e atuar para interromper ciclos de violência que atravessam gerações. Essa é a minha luta. Essa é a luta da minha instituição.
O 8 de Março não é sobre flores. É sobre raízes. Sobre enfrentar o que ainda nos constrange como sociedade e assumir a responsabilidade de mudar estruturas – não apenas estatísticas. É isso que espero que esse dia nos lembre, inclusive quando o calendário já tiver virado a página.

