Por Tiago Ghezzi, coloproctologista do Hospital Moinhos de Vento
Celebramos com entusiasmo cada descoberta que nos aproxima da cura do câncer. Nas últimas décadas, avançamos muito nesse sentido, mas, infelizmente, não enfrentamos apenas um inimigo; são mais de 200 tipos diferentes de câncer. É inevitável, portanto, que mais esforços e recursos sejam destinados às pesquisas envolvendo tumores de maior prevalência e mortalidade – caso do câncer de intestino grosso que, segundo a OMS, é o terceiro tipo mais comum e o segundo mais letal.
Desse modo, foi compreensível a animação da comunidade científica há três décadas, quando foi publicado o artigo Um Modelo Genético para a Tumorigênese Colorretal, de Bert Vogelstein. Ele demonstrou que o acúmulo de mutações em determinados genes é capaz de transformar uma célula normal em pólipo e, finalmente, em câncer do intestino grosso. À época, pensávamos ter encontrado a chave não apenas para a cura, mas também para a prevenção. Novas terapias foram desenvolvidas, mas nenhuma foi capaz de erradicar ou evitar essa doença.
Há um crescimento expressivo de casos em jovens
Aprendemos na prática que a prevenção secundária – que identifica e trata uma enfermidade em sua fase inicial – é capaz de reduzir a incidência e a mortalidade dessa doença. Foi o caso de países onde há rastreamento estruturado, com pesquisa de sangue oculto nas fezes e colonoscopia como uma política de saúde pública custo-efetiva. No Brasil, a falta de acesso universal favorece o diagnóstico tardio, quando as chances de cura são menores.
Além disso, há um crescimento expressivo de casos em jovens, fazendo desta doença a principal causa de morte por câncer em indivíduos com menos de 50 anos. A epigenética, segundo a qual modificações no comportamento dos genes podem ser causadas por hábitos de vida, nos ajuda a encontrar os principais fatores associados com esse aumento, como o consumo de alimentos processados e ultraprocessados, dieta rica em carne vermelha e gordura, sedentarismo, obesidade, tabagismo e alterações do microbioma intestinal pelo uso indiscriminado de antibióticos ao longo da vida.
Combatê-los é fazer prevenção primária, ou seja, evitar que pólipos e tumores se desenvolvam. Isso requer, portanto, bons hábitos de vida e a realização de colonoscopia a partir dos 45 anos de idade. São medidas simples que dependem da conscientização e disciplina individual, com impacto positivo na saúde coletiva e no enfrentamento desta doença que, se detectada precocemente, tem maiores chances de cura.


