Por Fernando Gerchman, endocrinologista do Hospital Moinhos de Vento
Há 8 bilhões de razões para enfrentar a obesidade. Com esse lema, a World Obesity Federation promove sua campanha para este dia, celebrado em 4 de março. Hoje, 1 bilhão de pessoas vivem com obesidade no mundo. Se mantidas as tendências atuais, em 2035 serão 4 bilhões com excesso de peso. Trata-se, portanto, de um desafio coletivo, com repercussões sanitárias, sociais e econômicas globais.
Essa trajetória começa precocemente. Em 1975, a obesidade acometia cerca de 7,5% das crianças; atualmente, essa prevalência ultrapassa 20%. O crescimento mais acelerado ocorre em países de baixa e média renda, ampliando desigualdades já existentes. Cada vez mais crianças e adolescentes apresentam diabetes tipo 2, doença cardiovascular e outras complicações associadas à obesidade _ condições que, até poucas décadas atrás, eram predominantemente observadas em adultos.
É possível modificar essa história por meio de ações estruturadas e baseadas em evidências
Sem intervenção adequada, essas crianças tendem a se tornar adultos com comprometimento progressivo de órgãos-alvo, como coração, cérebro, rins e sistema musculoesquelético. Além das complicações clínicas, convivem com estigmatização, baixa autoestima e piora substancial da qualidade de vida, marcada por dor e sofrimento físico e psíquico mais precoces. Entretanto, esse desfecho não é inevitável.
É possível modificar essa história por meio de ações estruturadas e baseadas em evidências: combater a discriminação; promover educação consistente sobre hábitos de vida saudáveis em todos os níveis da sociedade; e implementar políticas públicas robustas de prevenção, diagnóstico e manejo da obesidade.
A Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO) publicará nesta semana a nova Diretriz Brasileira de Manejo Farmacológico da Obesidade - atualização de um documento cuja última edição data de 2016. Elaborada por 27 dos principais especialistas do país, a diretriz estabelece critérios claros sobre quando e como indicar tratamento medicamentoso, alinhando a prática clínica às evidências científicas mais recentes.
O documento também pode subsidiar o debate no âmbito federal sobre a incorporação do tratamento farmacológico adequado no sistema público de saúde para pessoas com obesidade. A ampliação do acesso a terapias eficazes é componente essencial de uma política pública abrangente, capaz de reduzir complicações associadas, prevenir multimorbidades e mitigar o envelhecimento precoce relacionado à doença.
A obesidade é uma doença crônica, recidivante e de manejo contínuo. Ignorá-la ou tratá-la de forma episódica perpetua sofrimento e custos evitáveis. Enfrentá-la com seriedade, ciência e compromisso institucional é investir em um futuro mais saudável para 8 bilhões de pessoas, para todos nós.


