Por Isara Marques, jornalista
A Justiça do Sudão condenou, recentemente, duas mães à morte por apedrejamento. Uma delas tem nove filhos; o marido afirma que um não é dele. A outra foi abandonada após o nascimento do primeiro filho. Sete anos depois, o homem retorna não para assumir responsabilidades, mas para acusá-la de adultério.
Costumamos olhar para situações assim como se fossem resquícios de um mundo distante, alheio à nossa ideia de civilização. Como se a barbárie estivesse sempre longe de nós. Como se o apedrejamento fosse apenas uma cena medieval, incompatível com o presente.
Mas ele não é tão distante quanto poderia parecer.
No Rio Grande do Sul e no Brasil, mulheres seguem sendo apedrejadas todos os dias – não em praças públicas, mas dentro de casa; não com pedras, mas com socos, ameaças, humilhações e tiros. A execução pode não ser pública, mas a sentença costuma ser silenciosa e rápida.
Em 2025, o Rio Grande do Sul registrou 80 feminicídios oficialmente reconhecidos. No mesmo período, foram contabilizadas 264 tentativas de feminicídio, mais de 31 mil ameaças, 52,7 mil casos de lesão corporal e mais de 18 mil registros de estupro. São números que deveriam nos paralisar – mas que, de tão recorrentes, correm o risco de se tornar rotina.
Cada número carrega um rosto, uma história interrompida, uma família marcada
Governos e organizações se mobilizam, campanhas são lançadas, protocolos são revisados. Ainda assim, a violência persiste. Diferentemente de outros indicadores criminais que apresentam queda no Estado, os crimes contra mulheres seguem em patamar alarmante.
O que não podemos é normalizar esses dados, aceitar que a brutalidade seja absorvida como parte inevitável da vida social. Cada número carrega um rosto, uma história interrompida, uma família marcada.
O apedrejamento mudou de forma, mas não de essência. E enquanto tratarmos essa epidemia como estatística – e não como urgência moral e política – continuaremos a assistir, perplexos e impotentes, à repetição da mesma sentença.


