Por Fernando Goldsztein, fundador da fundador da The Medulloblastoma Initiative, conselheiro da Children's National Foundation e MBA - MIT, Sloan School of Management
Nestes dias retornei ao Campus do Vale da UFRGS – localizado no bairro da Agronomia, quase em Viamão. Digo retornei pois frequentei o local como estudante lá nos idos de 1983. O tempo voa! Naquela época, o campus havia recém-inaugurado e estava tudo estalando de novo – dava gosto de ver. Laboratórios, salas de aula, refeitórios, auditórios, tudo impecável. Lembro como se fosse hoje.
Vivíamos em um outro mundo. Ainda não havíamos sido sugados para dentro do universo digital. Nada de internet, e-mail ou celular. Para fazer uma ligação pra casa, o aluno precisaria ter fichas telefônicas – cada uma durava apenas três minutos – e ainda enfrentar fila no orelhão. Outros tempos!
O Campus do Vale era um projeto arrojado para a época. Foi planejado como um campus-parque afastado da cidade, inspirado no modelo das universidades norte-americanas da segunda metade do século 20. Em vez de prédios compactos integrados à cidade, reúne edifícios acadêmicos espalhados por uma grande área verde, conectados por vias internas e espaços abertos. A arquitetura segue o estilo moderno e funcional, com volumes simples e foco em laboratórios e salas de aula. Cada instituto – como Física, Geociências, Informática, Química e Biociências – ocupa seu próprio conjunto de prédios, formando um "arquipélago acadêmico", marcado por grandes distâncias, ruas largas e amplos estacionamentos. Tudo isso em meio a áreas naturais preservadas – a marca registrada do campus.
Mas, como eu dizia, retornei ao local depois de quatro décadas. Fui levar meu filho, calouro do curso de Geografia, no seu primeiro dia de aula. Desde pequeno ele sempre gostou de mapas, continentes, países e suas capitais. Lembro que, com cinco anos, já sabia identificar as bandeiras de quase todas as nações do planeta. Era capaz também de apontar onde se localizavam praticamente todos os países do continente africano, feito difícil de ser replicado até por adultos bem instruídos.
Independentemente dessas restrições orçamentárias, a instituição continua lá, firme e forte
Bem, lá estava eu de novo. Tudo parecia igual, a não ser o desgaste das construções e dos equipamentos pelo efeito da passagem do tempo e, mais do que tudo, pela visível falta de conservação e manutenção. Infelizmente, a UFRGS, assim como várias outras universidades federais, enfrenta hoje uma situação financeira marcada pela forte restrição de recursos. A quase totalidade do orçamento é destinada a salários e aposentadorias, restando poucos recursos para o funcionamento, a conservação, a manutenção e a modernização da infraestrutura do campus.
Porém, independentemente dessas restrições orçamentárias, a instituição continua lá, firme e forte, com seus alunos, funcionários e professores, e mais um ano letivo se iniciava. Me despedi do meu filho e, enquanto o via desaparecer entre os prédios do campus, pensei, emocionado, que os lugares envelhecem, mas os começos se renovam – afinal, a vida é feita de ciclos. Quarenta anos se passaram, e ali estava novamente um jovem iniciando sua jornada – desta vez, meu filho.



