Por Chris Cidade Dias, escritora
O livro, hoje, disputa atenção com telas, notificações e um excesso quase ininterrupto de estímulos. A rapidez das redes, a promessa de prazer imediato e de respostas prontas ocupam grande parte do nosso dia. A concorrência é desleal, eu sei.
Ainda assim, sigo acreditando no livro. Porque existe uma outra tela, interna, que também precisa ser acessada. É ela que nos move a continuar colocando histórias em palavras. O livro funciona como um botão que ativa esse acesso à nossa subjetividade. É nesse ponto que a arte e o brincar ainda encontram espaço para acontecer.
As pessoas sempre precisaram de histórias; mais do que isso, somos feitos delas. Nossa memória é um grande banco narrativo. Isso nunca mudou no leitor. O que muda é o tempo, o ritmo, a informação. O mundo está mais rápido, e isso não tem volta. O livro faz um convite para andar mais devagar, como se acionasse o slow motion. Nem todo mundo consegue ou quer. Mas é tão bom quando a gente consegue. É como férias. Quem não gosta?
Quanto mais rápida e limpa essa conexão, mais forte é o encontro
Nos anos 1980, antes de morrer, Ítalo Calvino escreveu um livro muito apropriado para o que estamos vivendo hoje. A obra falava de leveza, rapidez, exatidão, visibilidade e multiplicidade. Mesmo antes da avalanche informacional atual, ele já apontava um caminho: escrever com precisão, sabendo o que fica e o que deve sair.
A concisão pode salvar a literatura porque a história que um livro conta busca encontrar a história de cada leitor. Quanto mais rápida e limpa essa conexão, mais forte é o encontro. Escrever para a infância, por mais de 20 anos, me ensinou o valor disso. Ao escrever, faço a pergunta: depois de tudo o que foi dito, o que realmente importa dizer? Essa reflexão organiza a minha escrita e foi fundamental na construção do meu primeiro romance, com uma narrativa mais fiel ao essencial.
O livro nos liga a pensamentos que outros já tiveram e, assim, nos coloca juntos. Para mim, ele é isso, uma grande mesa de jantar onde leitores, escritores e quem mais chegar se sentam para contar, ou descobrir, a própria história.



