Por Luiz Fernando Barboza dos Santos, procurador do Estado e ex-presidente da Associação dos Procuradores do Estado do Rio Grande do Sul
A Enquanto muitos discutiam a propaganda de fim de ano dos chinelos Havaianas, uma velha conhecida dos brasileiros encerrava 2025 com os dois pés na porta: a cultura patrimonialista, que ressurgiu triunfante no mais recente escândalo financeiro do país.
As fraudes praticadas pelo Banco Master não causaram prejuízos apenas a investidores, ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e ao sistema financeiro como um todo. Elas escancararam, mais uma vez, a força de um traço histórico nacional que insiste em sobreviver: a confusão entre os interesses públicos e privados.
O Brasil voltou a assistir a um escândalo financeiro marcado por relações espúrias entre o controlador da instituição e figuras dos altos escalões dos poderes da República. A tentativa de aquisição do Banco Master pelo Banco de Brasília, o projeto de lei que surgiu no Congresso com o objetivo de ampliar o limite de cobertura do FGC e as decisões heterodoxas do Supremo Tribunal Federal nas investigações relacionadas à fraude revelam situações no mínimo inusitadas e distantes de qualquer normalidade institucional.
O impacto é direto sobre o chamado Risco Brasil, ao elevar a percepção de insegurança por parte de investidores nacionais e estrangeiros
A cultura patrimonialista corrói o regime republicano, enfraquece as instituições e alimenta, na sociedade, um sentimento recorrente de descrença. Neste caso específico, ela ainda compromete a livre concorrência, abala a segurança jurídica e deteriora o ambiente de negócios. O impacto é direto sobre o chamado Risco Brasil, ao elevar a percepção de insegurança por parte de investidores nacionais e estrangeiros.
As consequências dessa prática, portanto, extrapolam o campo ético, acarretando prejuízos de ordem econômica, social, jurídica e política. Este novo episódio demonstra que o país ainda percorre um longo caminho para dar efetividade plena ao ideal republicano, baseado no bem comum e em um ambiente institucional menos tolerante à corrupção. Enquanto não rompermos com nossa herança patrimonialista, continuaremos a confirmar a conhecida sentença de Millôr Fernandes: “O Brasil tem um enorme passado pela frente”.