Por Eric Fernando Boeck Daza, especialista em energia e mudanças climáticas
Janeiro de 2025 marcou não apenas a posse de Donald Trump para um segundo mandato, mas uma reorientação estratégica em que Washington voltou a tratar a energia como instrumento de poder geopolítico. Ao longo de 12 meses, a administração usou instrumentos fiscais e regulatórios para subordinar a agenda climática à lógica da “dominância energética americana”.
A saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris foi simbólica. O pivô real veio em julho, com a aprovação do One Big Beautiful Bill Act, que alterou prazos e elegibilidade de créditos do Inflation Reduction Act. Incentivos a veículos elétricos foram encerrados em setembro de 2025, e créditos residenciais para energia solar terminaram em dezembro. Segundo a GlobalData, apenas no primeiro trimestre do ano, projetos de energia limpa cancelados somaram US$ 8 bilhões, enquanto custos de projetos solares subiram até 54% após tarifas.
Trump retirou áreas do litoral de novos leilões de eólica offshore, suspendeu licenças de grandes projetos e manteve os EUA fora da COP30, enquanto anunciava a abertura de novas áreas para perfuração de petróleo
Enquanto o debate público se concentrava em Paris, a Agência de Proteção Ambiental avançou em um desmonte regulatório silencioso, propondo revogar padrões de emissões e a base científica da regulação climática federal. Em paralelo, o Departamento de Energia cancelou centenas de contratos ligados a projetos de energia limpa, ampliando a insegurança institucional.
A ausência virou política. Trump retirou áreas do litoral de novos leilões de eólica offshore, suspendeu licenças de grandes projetos e manteve os EUA fora da COP30, enquanto anunciava a abertura de novas áreas para perfuração de petróleo.
O saldo de Trump 2.0 enterrou três ilusões: que países ricos são portos seguros para investimento limpo; que tecnologia vence sozinha; e que compromisso moral sustenta política climática. A disputa é por previsibilidade.
Para o Brasil, após a COP30 e diante do vácuo americano, abre-se uma janela. Potencial existe, mas o diferencial será execução. Num mundo em que Washington decidiu encarecer o futuro limpo, quem oferecer estabilidade ficará com o capital. O resto é narrativa.