Por Richard Ricachenevsky Gurski, professor de cirurgia digestiva da UFRGS
O Dia Mundial do Câncer, celebrado em 4 de fevereiro, é um convite à reflexão, à informação de qualidade e à ação. Entre as neoplasias mais relevantes para a saúde pública, os cânceres do aparelho digestivo, especialmente os de esôfago e estômago, merecem atenção pelo elevado número de casos e pelo diagnóstico ainda tardio.
Muitos pacientes chegam aos serviços especializados em estágios avançados, o que reduz de forma importante as chances de cura
Após mais de três décadas atuando no tratamento cirúrgico dessas doenças, observo um padrão frequente: muitos pacientes chegam aos serviços especializados em estágios avançados, o que reduz de forma importante as chances de cura. Como afirmava Rudolph Virchow, um dos pais da medicina moderna, ainda em 1848, “a informação é uma forma de prevenção”. Essa afirmação segue atual.
Quando diagnosticados precocemente e tratados de forma multidisciplinar, os cânceres do esôfago e do estômago apresentam sobrevida em cinco anos de 40% a 70%, números impensáveis há poucas décadas. Poucos fatores impactam tanto o prognóstico quanto o momento do diagnóstico.
Muitos fatores de risco são evitáveis. O tabagismo e o consumo excessivo de álcool continuam os principais, associados a obesidade, sedentarismo e dietas ricas em alimentos ultraprocessados. No câncer de esôfago, a doença do refluxo gastroesofágico merece destaque: quando não tratada adequadamente, pode levar a alterações da mucosa, como o esôfago de Barrett, aumentando o risco de câncer. No estômago, a infecção pelo Helicobacter pylori deve ser diagnosticada e tratada.
É importante desmistificar o tratamento cirúrgico. Quando indicadas e realizadas em centros especializados, tanto a cirurgia do esôfago quanto a do estômago apresentam baixos índices de complicações e contribuem de forma importante para as taxas de sobrevida.
Sintomas como dificuldade para engolir, perda de peso inexplicada, anemia ou dor abdominal persistente não devem ser ignorados. A persistência desses sinais exige avaliação médica.
A mensagem é clara: câncer do aparelho digestivo pode ser prevenido, diagnosticado precocemente e tratado com chances reais de cura. Conscientizar é salvar vidas — e essa é uma responsabilidade de todos nós.




