Por Ivonei Pioner, presidente da Federação Varejista do Rio Grande do Sul
O debate recente sobre o aumento da busca por atestados médicos em unidades de urgência e emergência, bem como os alarmantes casos de agressões a profissionais da saúde, precisa ser compreendido como um problema social complexo — que envolve saúde pública, relações de trabalho, cultura organizacional e responsabilidade coletiva.
Quando emergências são ocupadas por pessoas que buscam exclusivamente um atestado, perde-se eficiência no atendimento de quem realmente precisa de cuidado imediato
É preocupante observar que estruturas essenciais do sistema de saúde, no Rio Grande do Sul, estejam sendo pressionadas por demandas que não são, necessariamente, assistenciais. Quando emergências são ocupadas por pessoas que buscam exclusivamente um atestado, perde-se eficiência no atendimento de quem realmente precisa de cuidado imediato. Mais grave ainda é quando essa distorção gera conflitos, ameaças e violência contra médicos e equipes de saúde, que passam a atuar sob pressão e insegurança.
O atestado médico é, e deve continuar sendo, um direito do trabalhador e um instrumento legítimo de proteção à saúde. No entanto, seu uso indevido compromete não apenas o sistema de saúde, mas também o ambiente de trabalho, a produtividade das empresas e a relação de confiança entre empregador e empregado. Quando o afastamento deixa de ser uma exceção necessária e passa a ser visto como estratégia recorrente, algo está errado — e isso precisa ser enfrentado com maturidade.
Do ponto de vista do varejo e do setor produtivo, é fundamental ampliar o olhar para dentro das organizações. Altos índices de absenteísmo podem ser um sintoma de ambientes de trabalho adoecidos, de relações mal conduzidas, de falta de diálogo, de pressão excessiva ou até de assédio. Empresas saudáveis tendem a ter equipes mais engajadas, responsáveis e comprometidas. Ignorar esse diagnóstico é perder a oportunidade de corrigir a causa e não apenas o efeito.
O desafio está em equilibrar direitos e deveres. Saúde, trabalho e desenvolvimento caminham juntos. O uso consciente dos serviços públicos, ambientes de trabalho mais humanos e políticas públicas bem coordenadas são caminhos para reduzir conflitos, preservar vidas e fortalecer a sociedade como um todo. Esse é um compromisso que precisa ser compartilhado por trabalhadores, empresas, governos e pela própria comunidade.
