Por Diógenes Zãn, neurologista e fundador do TeleAVC
No verão, milhares de gaúchos rumam ao litoral para aproveitar as praias e os atrativos típicos da estação. Festas à beira-mar, churrascos em família e longos dias ao sol viram rotina. Mas esse cenário de descanso e celebração também esconde um risco pouco discutido: o aumento da probabilidade de acidente vascular cerebral (AVC).
Estudos epidemiológicos recentes demonstram associação direta entre altas temperaturas e maior incidência de AVC isquêmico – o tipo mais comum, causado pela obstrução de artérias cerebrais. Os mecanismos que explicam essa relação são bem conhecidos pela medicina e indicam que o risco pode até dobrar.
Calor intenso, exposição prolongada ao sol e reposição inadequada de líquidos favorecem a perda hídrica. Quando o corpo desidrata, o sangue se torna mais espesso e propenso à formação de coágulos. Se um desses coágulos alcança o cérebro, o resultado é o AVC.
Mecanismos que explicam essa relação são bem conhecidos pela medicina
Há ainda os hábitos típicos das férias que potencializam o risco. O consumo excessivo de álcool agrava a desidratação. O churrasco servido em cortes gordurosos e com excesso de sal eleva a pressão arterial e sobrecarrega o sistema cardiovascular.
A interrupção ou o esquecimento de medicamentos de uso contínuo, como anti-hipertensivos, anticoagulantes e remédios para diabetes, desestabiliza condições crônicas que podem multiplicar o risco vascular. E a exposição ao calor intenso pode desencadear arritmias cardíacas, especialmente em pessoas com fibrilação atrial, favorecendo a formação de coágulos no coração.
No Rio Grande do Sul, onde a rede de urgência neurológica enfrenta limitações fora dos grandes centros, é preciso atenção. Reconhecer os sinais de AVC – perda súbita de força, dificuldade para falar, desvio de rima facial – e buscar atendimento imediato pode significar a diferença entre recuperação e incapacidade permanente.
Antes de seguir para a praia, vale lembrar: muita hidratação, manutenção rigorosa das medicações e dieta controlada não são apenas conselhos de bem-estar. São medidas de proteção cerebral. O verão é tempo de descanso, mas o cuidado com a saúde não tira férias.
