Por Rafaela Caporal, coordenadora da área de Enfrentamento às Violências da Themis — Gênero, Justiça e Direitos Humanos
Chegamos na última semana ao 80º feminicídio no RS, mais um triste indicador de um ano marcado por crimes bárbaros contra as mulheres no Estado e no Brasil. O assassinato de Juliana da Silva Dias, cujo corpo foi encontrado em uma lixeira na zona norte de Porto Alegre, é o caso mais recente de um problema que insistimos em ignorar: continuamos reagindo à violência apenas depois que ela ocorre, enquanto falhamos em investir de forma consistente na prevenção.
Menos de 70% dos municípios gaúchos contam com a Patrulha Maria da Penha
Mecanismos de resposta, como o aumento de penas, a tipificação do feminicídio e as medidas protetivas, são importantes. No entanto, não têm sido suficientes para reduzir os índices de violência. A experiência da Themis, em atuação direta nos territórios e junto às mulheres atendidas pela rede de serviços, mostra que a prevenção precisa ocupar um lugar central na agenda pública.
Menos de 70% dos municípios gaúchos contam com a Patrulha Maria da Penha, essencial para acompanhar mulheres em situação de alto risco. Essa lacuna revela não apenas a falta de estrutura, mas também a ausência de política contínua de fortalecimento das redes de atendimento. Saúde, assistência social, segurança e justiça precisam atuar de forma integrada para evitar que mulheres percorram a chamada “rota crítica”, empurradas de um serviço a outro sem acolhimento, orientação ou proteção.
A prevenção também passa pela qualificação das equipes. Profissionais que atuam na ponta precisam estar preparados para reconhecer riscos, acolher sem julgamento e compreender a complexidade dos ciclos de violência que atingem as mulheres. Ainda hoje, muitos atendimentos reproduzem estereótipos que culpabilizam a vítima e dificultam seu acesso à proteção, perpetuando barreiras que o Estado deveria eliminar, não reforçar.
Vivemos uma verdadeira epidemia de violência contra as mulheres. Enfrentá-la exige mais do que respostas punitivas: requer investimento consistente em prevenção, educação para a igualdade de gênero e fortalecimento das redes de atendimento. Só assim poderemos construir, de forma efetiva, uma cultura de paz e garantir que todas as mulheres vivam com dignidade, autonomia e liberdade.


