Por Francisco Turra, consultor em agronegócio e ex-ministro da Agricultura
Toda sociedade depende de seus cidadãos. Saúde, segurança, educação e infraestrutura não surgem do nada – são fruto da contribuição de quem trabalha, produz e paga impostos. É o dinheiro das famílias, como disse Margaret Thatcher. E quanto mais eficiente for a gestão da receita pública, mais visíveis serão os resultados e menos carga tributária será exigida. Mas é nesse ponto que o Brasil se perde.
Enquanto em muitos países o cidadão trabalha cerca de 20 dias por ano para sustentar o Estado, aqui dedicamos mais de um terço do nosso tempo a isso. E, mesmo assim, convivemos com estradas esburacadas, hospitais precários e escolas em crise. Porque o problema não está apenas na carga tributária, mas em como ela é usada – e, sobretudo, na forma passiva como aceitamos os abusos tributários.
Nada disso é normal, embora tentem nos convencer do contrário
Quando um poder decide resgatar direitos retroativos e engordar contracheques, sem reação da sociedade, a injustiça se institucionaliza. Quando a professora que nos formou ganha uma fração do salário das chamadas "carreiras de ponta", e o contribuinte se cala, ele se torna cúmplice. E quando a política cria um "Fundão" bilionário para financiar campanhas, sem pudor nem controle, o cidadão deixa de ser contribuinte e passa a ser tratado como otário. Infelizmente.
Nada disso é normal, embora tentem nos convencer do contrário. Tomemos o caso do produtor rural, que trabalha de sol a sol para garantir alimento aos brasileiros. Ele sente o peso dessa inversão de valores – paga caro, produz muito e é tratado como vilão. Se essa lógica continuar, nossos netos talvez precisem trabalhar metade do ano apenas para sustentar um Estado inchado, ineficiente e indiferente.
Reagir a tudo isso não é falta de educação ou desrespeito às instituições. É um dever cívico e social. Essa é uma luta de que pouco se fala. O Brasil só mudará quando o contribuinte deixar de ser espectador e exigir respeito. Quem quer ser cidadão – e não otário – precisa começar a protestar com mais veemência. Foi longe demais!


