Por Cristiane Stracke, docente e especialista em psiquiatria da Afya Porto Alegre e membro do Núcleo de Estudos sobre Variações Climáticas da Associação de Psiquiatria do RS (APRS)
Junto à Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, realizada em Belém do Pará, uma discussão urgente ganha ainda ais força, mas sobre a qual continuando discutindo por aqui: os efeitos da crise climática não são apenas ambientais – eles também atingem a saúde mental.
A experiência de Porto Alegre, que em 2024 viveu a pior enchente de sua história, exemplifica o tamanho desse impacto. As águas que invadiram casas e ruas também abalaram estruturas invisíveis: as emocionais. Perdas materiais, deslocamentos, incertezas e a sensação de impotência diante da força da natureza deixaram marcas profundas em milhares de pessoas.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 25% das pessoas expostas a eventos climáticos extremos desenvolvem sintomas de ansiedade, depressão ou transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). Em estudos realizados após enchentes e incêndios, a prevalência desses sintomas chega a 40% entre as populações mais afetadas. No Brasil, um levantamento da Fiocruz apontou que, após desastres ambientais, há aumento significativo no uso de medicamentos ansiolíticos e antidepressivos, além de maior procura por atendimentos em saúde mental.
Após desastres ambientais, há aumento significativo no uso de medicamentos ansiolíticos e antidepressivos
Esse fenômeno tem nome: ecoansiedade – a angústia gerada pela percepção constante de ameaça ao planeta e ao futuro. A Associação Americana de Psicologia estima que sete em cada dez jovens sentem medo ou desesperança em relação às mudanças climáticas. O trauma climático é real e coletivo. A reconstrução das cidades precisa incluir também a reconstrução emocional de quem viveu essas experiências.
Discutir saúde mental é parte essencial do enfrentamento à crise climática. Não basta investir apenas em infraestrutura e prevenção de desastres. É fundamental criar redes de apoio emocional e preparar os profissionais de saúde para lidar com o sofrimento psíquico decorrente dessas situações. Ao trazer o tema à tona, o Brasil tem a chance de ampliar o debate global sobre os efeitos invisíveis das mudanças climáticas. Afinal, cuidar da mente também é uma forma de cuidar do planeta.