Por Diza Gonzaga, diretora institucional do DetranRS e presidente voluntária da Fundação Thiago Gonzaga
A adultização é um fenômeno que vem ganhando atenção, especialmente após denúncias sobre a exposição precoce de crianças nas redes sociais. Esse alerta nos convida a refletir sobre como estamos contribuindo para padrões que aceleram o amadurecimento infantil e como isso se manifesta no trânsito.
Desde os primeiros anos, crianças são incentivadas a assumir o papel simbólico de condutor. Brinquedos, jogos, pistas de corrida reforçam esse imaginário, muitas vezes associado ao universo masculino, perpetuando estereótipos e naturalizando a ideia de que dirigir é um objetivo inerente à infância. Essa indução ignora a trajetória real no trânsito, como passageiro, pedestre, ciclista, e foca só na vida adulta como condutor de veículos.
Reconhecer e enfrentar esse padrão é o desafio que temos pela frente
Ao priorizar o papel de condutor, reforçamos um modelo de trânsito centrado no veículo e criamos uma falsa sensação de que conduzir um veículo é marco indispensável da vida adulta. Em vez disso, é essencial que as crianças vivenciem experiências compatíveis com seu desenvolvimento: aprender a atravessar ruas com segurança, usar a cadeirinha, respeitar os espaços públicos de brincar e de locomoção e reconhecer a sinalização de trânsito.
Outro aspecto preocupante é a inversão no processo educativo. Muitas crianças acabam ensinando os pais e familiares sobre comportamentos seguros no trânsito ensinados na escola, revelando falhas na formação dos adultos e colocando as crianças num papel impróprio. Quem deve ensinar e dar exemplo são os adultos.
A educação para o trânsito deve respeitar cada fase do desenvolvimento infantil. Reconhecer e enfrentar esse padrão é o desafio que temos pela frente, para garantir que nossas crianças vivam plenamente sua infância, com respeito ao seu tempo e suas necessidades. Campanhas educativas, materiais pedagógicos adequados e formação de educadores são estratégias fundamentais para combater a adultização precoce e promover uma cultura de segurança e preservação da vida no trânsito.



