Quando ele resolveu trocar de nome, amigos viveram apuros para assimilar a mudança. É difícil passar anos chamando alguém de Marcelo e, de repente, sair falando Irineu com naturalidade. Como ficava incomodado com o uso do antigo nome, deixamos para utilizar Marcelo apenas entre nós, até como uma travessura. Entre os amigos, era Marcelo, vulgo Irineu.
Marcelo Rezende Guimarães modificou a identidade ao assumir a vida monástica em 2007. Já era padre desde os anos 1980, mas a partir dali se tornaria monge beneditino. O nome dado pelos pais em 1959 foi substituído por outro que diz mais sobre seu propósito de vida. Irineu significa "fazedor de paz", explicava ele. Também adotou o título de "dom", uma tradição entre os monges.
Dom Irineu dedicou a vida à construção de uma cultura de paz, mas isso não significava buscar contemplação ou um estado metafísico. A paz de Irineu tinha ação. Nos anos 1990, reuniu jovens da região de Santa Cruz do Sul para semear a causa pacifista. Jornalista recém-formado, o ajudei a fazer várias edições do jornalzinho do grupo. Era o princípio de uma amizade nascida durante uma tarefa da faculdade. Fui procurar um padre no Mosteiro da Santíssima Trindade para falar sobre Deus, e Marcelo falou sobre Deus e sobre problemas globais, como as minas terrestres.
Depois do trabalho com os jovens, se deu conta de que era possível ampliar o campo de ação. Em Porto Alegre, criou a ONG Educadores para a Paz, com o objetivo de instruir professores em temas como tolerância e não violência. Na sua "paz ativa", fez doutorado e escreveu livros e artigos sobre o assunto. Atento à linguagem, me questionava por que a imprensa reproduz referências de violência. Implicava com o uso de termos como batalha e guerra em textos que nada têm a ver com conflitos armados.
Afável e alegre, dom Irineu adorava Carnaval. Era capaz de cantar qualquer enredo do Rio e de qualquer época. Bastava alguém perguntar, de forma aleatória, qual foi o samba de determinada escola no ano tal, que começava a entoar empolgado. Em 2001, sugeriu e emplacou a paz como tema da Mocidade. Foi esse intelectual com talento para misturar samba, religião e pacifismo que perdemos no sábado passado. Após sete anos enfrentando as limitações impostas pela esclerose lateral amiotrófica (ELA), dom Irineu morreu aos 56 anos na França, onde morava desde 2009.

