Por Marta Gleich, diretora-executiva de Jornalismo e secretária do Conselho Editorial da RBS
Nosso cérebro tem predileção pelo mais fácil, porque fomos moldados para economizar energia. O problema é que isso parece estar piorando.
Em uma palestra, prender a atenção do público por mais de 10 minutos virou tarefa de gincana. O cara tem que ser um show.
Os conteúdos de redes sociais precisam capturar a atenção em três segundos, ou o usuário rola a tela.
Imagine o professor em sala de aula, com alunos que já nasceram com um celular na mão. Haja performance.
vamos priorizar entrevistas e sabatinas em profundidade, debates entre diferentes propostas e clareza dos candidatos sobre o que pretendem fazer
Com frequência, alguém comenta uma reportagem, mas confessa: “Não sei dar detalhes, eu só li o título”. O jornalismo que contextualiza, analisa e aprofunda tem o desafio de prender a atenção do público.
Nesse cenário, a radicalização grassa e a democracia míngua. O “nós” contra “eles” virou epidemia. Todo mundo cheio das certezas, quando a sabedoria depende de ter mais dúvidas. O “sim” ou “não” é mais fácil do que “deixa eu explicar por quê”. Ninguém tem paciência para o porquê, para o contraditório, para a solução conjunta de um problema intrincado. Em um cenário em que nem quero ouvir o outro, porque ele não concorda comigo, já mando um “sou contra!” ou “sou a favor!”. Não raciocine, só escolha um lado. Próximo.
Só que solucionar problemas complexos exige ouvir diferentes vozes, estudar, ler, consumir conteúdos de qualidade, prestar atenção, pensar e até, talvez, admitir que você estava errado. Ah, que trabalho.
Nas próximas semanas, eleições vão ganhar ainda mais os espaços jornalísticos, as discussões no almoço de domingo da família e o debate com os amigos. Em vez do a-favor-ou-contra que simplifica, torço pelo aprofundamento das propostas, pelo tempo para ouvir aqueles que pensam diferente da gente e pela valorização do ato de votar, com análise e consciência.
Em nossa cobertura eleitoral, vamos priorizar entrevistas e sabatinas em profundidade, debates entre diferentes propostas e clareza dos candidatos sobre o que pretendem fazer, com quais recursos e quando, para ajudar o eleitor a avaliar em profundidade em quem votar.
A consciência sobre seu papel na eleição e a descoberta da melhor saída para os desafios do país e do Estado dependem também de você pensar e dedicar atenção, antes de disparar a primeira resposta imediata, antes de rolar a tela. Dá trabalho. Mas a melhor solução para os problemas crônicos e aparentemente insolúveis, além de consumir tempo e neurônios, pode trazer um resultado extraordinário e dar aos envolvidos uma enorme satisfação de dever cumprido.



