Por José Galló, empresário e membro do Conselho Editorial da RBS
Apesar de quase ninguém falar disso no Brasil, existe uma causa comum em problemas como a mão de obra sem qualificação, a desigualdade de renda, a falta de produtividade perante outros países, a corrupção ou mesmo a escolha de maus políticos para governar o país ou fazer leis: o analfabetismo funcional.
O indicador que se costuma acompanhar é o analfabetismo (quando a pessoa não sabe ler ou escrever) ou o mau desempenho em matemática (quando o aluno não consegue fazer contas simples). Mas o analfabetismo funcional, condição de três em cada 10 brasileiros segundo o Indicador de Analfabetismo Funcional (Inaf) de 2025, é ainda mais preocupante. É quando se lê, mas não se interpreta o que está no texto. É quando se assiste a uma notícia sobre corrupção, mas não se entende do que se trata ou a gravidade do assunto para a sociedade. É quando não se consegue articular e expressar os pensamentos.
Apenas uma parcela da população compreende que governos não geram dinheiro
O analfabetismo funcional provoca consequências graves em todos os níveis: a pessoa não consegue pensar, analisar problemas, compreender o mundo e, portanto, é um cidadão menos atuante e pouco útil em sua comunidade, no seu trabalho e que tem mais dificuldade em vencer na vida, em todos os aspectos.
Tome-se o exemplo dos recursos públicos. Apenas uma parcela da população compreende que governos não geram dinheiro. Quem gera dinheiro são as pessoas e as empresas, por meio dos impostos. Pouca gente reflete, ou mesmo sabe, que cada quilo de feijão, cada pacote de biscoito, cada garrafa de água mineral, cada roupa tem uma série de impostos embutidos. Alguém lê o final das notas fiscais para verificar quanto de imposto tem ali pago pelo consumidor? Ninguém se importa, ninguém comenta. Qual o percentual da população que debate e atua sobre o fato de que aqueles impostos pagos em cada produto do supermercado deveriam retornar de uma forma mais efetiva em saúde, educação e segurança? Por que não se discute mais sobre o quanto dos impostos é consumido pela própria máquina pública que cobra os impostos, sem fazer chegar os benefícios à população?
Diante desse cenário, o jornalismo profissional tem o dever de fazer notícias compreensíveis, de explicar os fatos e suas consequências, de conectar o pagamento de impostos com a efetiva entrega de educação, saúde e segurança para a população, de auxiliar cada cidadão compreender e prosperar, contribuir, fazer sua parte na sociedade, de ajudar a pensar, de neste momento contribuir para que os eleitores compreendam a responsabilidade de seus votos, na escolha dos seus candidatos. Ao final, a imprensa tem o dever de ajudar a reduzir o analfabetismo funcional que assola o Brasil.




