Por Tiago Cirqueira, diretor-executivo de Produto Digital e membro do Conselho Editorial da RBS
Na era do scroll infinito, em que a informação se tornou uma commodity abundante, a verdadeira escassez já não é o dado, mas o tempo. Perseguir o clique efêmero, lógica que molda a economia da atenção, revelou-se uma armadilha para a imprensa profissional. A sustentabilidade das empresas de mídia não reside no volume estatístico de acessos anônimos, mas na profundidade do vínculo com aqueles que compartilham dos mesmos valores e identidade. É preciso transitar da antiga relação regional para uma gestão estratégica de comunidades. O consumidor, afinal, tornou-se o verdadeiro sócio desse ecossistema.
Para os veículos locais, a mudança é a chave da sobrevivência
Historicamente, os veículos tradicionais se consolidaram como espaços de identidade. Ao assinar o jornal, ligar o rádio ou sintonizar a TV, o gaúcho sinalizava o pertencimento a um território físico e simbólico. Hoje, o ambiente digital exige prática e propósito: não se trata apenas de “quem lê o quê”, mas de “quem faz o que junto com quem”. O negócio não termina quando a notícia é consumida. A verdade em 2026 é que o processo começa quando a pessoa decide colaborar, debater e transacionar nessa rede. Retirar a informação da sua origem, se apropriar dela e devolver para o mundo com a sua contribuição.
Para os veículos locais, a mudança é a chave da sobrevivência. Ativar esses núcleos, de Porto Alegre ao interior do Rio Grande do Sul, é resgatar o conceito clássico de “relação comunitária”. Aquele espaço de confiança mútua em que os temas regionais importam e geram engajamento real. A sustentabilidade e o valor do jornalismo passam a depender da capacidade de criar ambientes em que o usuário atue como coautor do conteúdo.
O sucesso de um produto digital acontece quando o público decide crescer junto com ele. É nessa sinergia que o sócio invisível revela sua força. O gaúcho não busca apenas consumir, mas também investir sua identidade na marca. Quando o leitor gaúcho financia o jornalismo local, não compra um produto. Ele assegura o espelho de sua própria realidade. Esse sentimento de pertencimento transforma o ato de ler, ouvir ou assistir em um gesto de copropriedade, em que cada interação qualificada eleva o valor de todo o ecossistema. Não se trata, então, de despejar mais histórias em um oceano de dados. O foco precisa estar em redesenhar a arquitetura de escolha por meio da mediação humana. Em tempos de desinformação, a sustentabilidade do futuro é garantida pela verdade em rede e por essa taxa de confiança. Ao oferecer governança e participação ativa, a curadoria editorial transforma o público passivo em uma comunidade perene. O resultado é o prêmio de compreender que o jornalismo, a informação e o conteúdo só se desenvolvem quando o gaúcho e sua comunidade se sentem verdadeiramente donos da casa. É sinal de que o investimento de tempo tem retorno positivo.

