Por Pedro Doria, Jornalista, cofundador do Canal Meio e membro do Conselho Editorial da RBS
Toda sexta-feira, meu Claude edita para mim uma revista chamada Radares. Ele pauta, apura, redige, edita e diagrama. No sábado, com calma, lanço mão do iPad para ler o que ele me traz. Tenho, e digo isso com algum embaraço, sentido uma certa antecipação. O que será que ele vai me trazer na edição desta semana? Vem me surpreendendo. Neste sábado, caro leitor, enquanto você lê esta minha coluna escrita com 10 dedos no teclado e o par de olhos fixo no monitor, eu estarei lendo o que uma inteligência artificial (IA) criou para mim.
Conversamos muitas horas a respeito do que é um bom texto jornalístico
É importante ser preciso aqui. Não basta fazer uma assinatura de IA de ponta, hoje Claude ou GPT, escrever um prompt de cinco linhas, sentar e esperar. Gastei bastante tempo treinando esta IA. Ela leu jornalistas que admiro pelo texto, como Gay Talese, Joseph Mitchel, Dorrit Harazim. Leu também gente cujo grande talento é construir argumentos – George Orwell, Susan Sontag, Cristopher Hitchens. A cada leitura, fiz com que extraísse lições. O que faz deste texto único, o que dá cadência às frases. Conversamos muitas horas a respeito do que é um bom texto jornalístico.
Ensinei, igualmente, como se constrói uma pauta a partir do noticiário. Que tipo de insight deve ocorrer a ele. Como se organiza uma revista, a ordem das seções. Ou seja, não é só IA. Tem ali um jornalista explicando como fazer jornalismo de alto nível. A primeira edição de Radares foi sobre o Estreito de Ormuz, a segunda sobre como o fracasso da política industrial de Viktor Orbán está por trás de sua derrota, na Hungria. O texto, para ser franco, não tem a sutileza dos grandes jornalistas escritores. (Mas é melhor do que boa parte do jornalismo diário de internet.) Aquilo que mais me surpreende é a capacidade de pensar pautas originais.
Jornalismo não é, nem de longe, a única profissão em cuja porta a IA está batendo. Mas ela está batendo à porta. É hora de começarmos, coletivamente, uma conversa sobre qual o papel de nós, humanos, no mundo que se abre.


