Por Ellen Appel, gerente-executiva de Jornalismo da RBS TV e membro do Conselho Editorial da RBS
Nas últimas semanas, um tema passou a ocupar cada vez mais espaço nas reuniões de pauta das redações: o feminicídio. E mais do que isso, a forma de noticiá-lo de maneira responsável. Em um momento em que os casos se multiplicam e chocam o país e o nosso Estado, é importante que nós, jornalistas, nos façamos algumas perguntas. Estamos no caminho certo? Estamos informando do jeito correto e contribuindo para o debate público ou, de alguma forma, ampliando a exposição de tragédias sem ajudar a preveni-las?
Buscamos ouvir especialistas para revisar práticas e aprofundar o debate sobre nossa própria cobertura
Essa inquietação não é nova, mas tem ganhado mais espaço e força. Na semana do Dia Internacional da Mulher, celebrado no último dia 8, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgou uma pesquisa inédita, como mostrou reportagem de GZH. Trata-se do Retrato dos Feminicídios, que revela que, em 2025, houve 1.568 vítimas de feminicídio no Brasil – alta de 4,7% em relação ao ano anterior e de 14,5% sobre 2021. Números que não expressam apenas uma estatística, mas histórias de vidas interrompidas por uma violência profundamente enraizada na sociedade.
A maior parte desses crimes acontece dentro de casa e é cometida por companheiros ou ex-companheiros. Especialistas lembram que o feminicídio raramente surge de forma repentina. Em geral, ele é o desfecho extremo de uma escalada de agressões físicas, psicológicas e morais que, muitas vezes, se estendem por anos.
Diante desse cenário, a comunicação tem um papel decisivo. Preocupados e atentos a isso, nós, do Grupo RBS, buscamos ouvir especialistas para revisar práticas e aprofundar o debate sobre nossa própria cobertura. Havia dúvidas. Dar grande visibilidade ao tema poderia estimular novos crimes? Ouvimos – e seguimos buscando – especialistas que indicam não haver evidências desse efeito quando a cobertura é responsável. Mostrar estratégias criativas usadas por mulheres para pedir ajuda também não é um problema; ao contrário, pode salvar vidas.
As recomendações são claras: contextualizar a violência, mostrar os sinais de risco que precedem os ataques, evitar a descrição detalhada da crueldade e dar destaque às consequências legais para os agressores. Mais do que narrar a morte, é preciso explicar o fenômeno – e cobrar políticas públicas capazes de preveni-lo.
O feminicídio é um tema doloroso e desafiador. Mas não falar sobre o assunto não é uma opção. Cabe às redações evoluírem continuamente na forma de abordar essa realidade, buscando um equilíbrio entre informar, respeitar as vítimas e as famílias e contribuir para que a sociedade compreenda, enfrente e previna novos casos.



