Por Anik Suzuki, CEO da ANK Reputation e membro do Conselho Editorial da RBS
Quero propor uma reflexão simples. Você se considera alguém confiável? A resposta quase sempre vem rápida: “sim”. Foi o que observei ao lançar essa pergunta em grupos próximos. Pedi então que explicassem por quê. As respostas se concentraram em valores pessoais: moral, histórico, amor à verdade, coerência, ética, relações duradouras. Todas legítimas. O ponto comum e inquietante é que quase nenhuma delas considerava o olhar do outro.
Confiar, ou ser confiável, não é um atributo que se decide individualmente. Confiança não nasce daquilo que acreditamos ser, mas daquilo que conseguimos tornar visível, compreensível e verificável. Se ninguém sabe quem você é, como age, o que faz e por que faz, não há confiança possível. Sem informação, não existe confiança.
Marcas jornalísticas seguem sendo mais confiáveis do que influenciadores e conteúdos digitais de origem fragmentada
Ampliado para o debate público, esse raciocínio ajuda a entender um dado preocupante do Digital News Report (2025), do Reuters Institute for the Study of Journalism. Nada menos de 67% dos brasileiros relatam dificuldade em distinguir o que é verdadeiro do que é falso no noticiário online, em meio a uma confusão informacional. O índice fica bem acima da já elevada média global, de 50%, indicando um agravamento da crise de confiança.
Essa realidade gera cansaço, fadiga e cinismo. Tudo parece suspeito. Tudo exige checagem constante. Passamos a relativizar, desacreditar e ironizar. Tornamo-nos críticos em excesso e, paradoxalmente, mais vulneráveis a narrativas que confirmam crenças prévias.
O mesmo estudo, porém, traz um dado relevante: marcas jornalísticas seguem sendo mais confiáveis do que influenciadores e conteúdos digitais de origem fragmentada. A razão é clara. O jornalismo que chamo de raiz opera com mediação, método, responsabilidade editorial e compromisso público. Com erros e acertos, oferece previsibilidade ética.
Por isso, 2026 pode e deve ser um ano estratégico para esse jornalismo que se atualiza na forma, mas preserva o essencial: profundidade na apuração, rigor na checagem, pluralidade real e separação clara entre fato e opinião. Essa objetividade necessária, muitas vezes, esbarra na descrença dos públicos, mas é, sim, perfeitamente viável, como resultado de treino, condicionamento, técnica e disciplina profissional. E talvez seja exatamente disso que mais precisamos para reconstruir a confiança.

